

Políticos Setubalenses nos finais do século XIX
ARENS, José Eduardo: Foi eleito, no ano de 1878 vereador substituto à Câmara Municipal de Setúbal com 1435 votos, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto.
No ano de 1879 foi refeito com 2124 votos, integrado numa lista de Regeneradores.
Ao iniciar o mandato, em Janeiro de 1880, ele e Joaquim Pedro Rasteiro eram os únicos eleitos pelo Partido Regenerador, mantendo os Progressistas a maioria.
Os Progressistas, mesmo estando em maioria, entregaram-lhe a presidência, reservando a vice-presidência para o seu correligionário José Maria Livério.
Em Junho de 1884 substituiu Francisco Matos da Costa nas funções de Substituto do Administrador do concelho.
No ano de 1886 fez parte da Assembleia Eleitoral de S. Sebastião e Santa Maria da Graça.
ALBINO, Agostinho Maria Rodrigues: Rico proprietário e comerciante em Setúbal, nasceu nesta cidade, no ano de 1826. Era sogro do Dr. Domingos Garcia Peres, médico e várias vezes deputado pelo círculo de Setúbal, com o apoio do sogro, que via nele a hipótese de ter um político importante na família.
"Agostinho Maria Albino era agente do antigo monopólio do tabaco e possuía poderosa influência eleitoral".
Na Misericórdia, todavia, não conseguiu fazer valer a sua influência. Em g de Junho de 1872 concorreu ao cargo de Companheiro de Tesoureiro, mas foi derrotado por Avelino Pereira de Lima.
No dia 4 de Dezembro de 1877 venceu a eleição para vereador da Câmara Municipal, na lista encabeçada pelo Dr. António Rodrigues Manitto.
Em 1878 propôs-se para o lugar de Conselheiro da Santa Casa da Misericórdia, obtendo 44 votos, insuficientes para se fazer eleger. Mas em 1879 conseguiu 87 votos ocupando assim o cargo de Conselheiro da Santa Casa até Julho de 1881, ano em que o seu nome não aparece entre os eleitos. No entanto, em 1885 retomou o cargo, sendo derrotado no ano seguinte. Em Julho de 1890 concorreu ao lugar de Tesoureiro, saindo vencido, quando foi eleito Provedor António Joaquim Corrêa.
Jamais se candidatou aos lugares a que normalmente se propunham os membros da família Corrêa, seus correligionários.
Posteriormente, foi o filho José Maria da Rosa Albino que corporizou o sonho do pai, ocupando o cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal, com o simultâneo afastamento dos Corrêa da cena política Setubalense.
Em acta da reunião da Mesa da Santa Casa da Misericórdia, realizada no dia 31 de Julho de 1907, encontramos referência a um seu legado, no valor de 422 000 réis.
Regenerador convicto, exercia as suas influências mas não se candidatava directamente aos cargos públicos ou políticos. Escolhia os candidatos, especialmente entre os membros da sua família, e "manipulava" os eleitores de acordo com os seus interesses.
Faleceu no dia 3 de Julho de 1903. Símbolo do capital Setubalense, até na morte o demonstrou. Se visitarmos o cemitério municipal de Setúbal, encontramos, 1090 à entrada, no canto esquerdo, virado para a Igreja, o seu imponente jazigo de família. No lado oposto e com a mesma traga encontramos o jazigo de seu irmão António Maria Albino.
ALBINO, António Maria: Em 1875 fez um requerimento à Mesa da Santa Casa da Misericórdia, conjuntamente com outros Juízes e Mesários da Irmandade do Santíssimo Sacramento, da freguesia de Nossa Senhora Anunciada, solicitando a entrega da imagem da Santa que sempre estivera no Hospital de Nossa Senhora Anunciada, entre as enfermarias dos homens e das mulheres. Após concretizada a entrega da imagem, esta foi exposta para culto, na Igreja da freguesia.
No ano de 1877 foi proposto, para a vereação da Câmara de Setúbal, como primeiro elemento de uma lista composta por Irmãos da Misericórdia.
Em 1879, foi eleito vereador para o biénio 1880/81 com 2127 votos (o mais votado na lista dos Regeneradores). Na primeira reunião do novo grupo de vereadores, que teve lugar no dia 2 de Janeiro de 1880, ocupou o lugar de presidente, por ser o mais votado. Após realização de eleições, ficou a ocupar o cargo de vice-presidente.
A situação financeira da Câmara agravou-se e António Maria Albino, apoiado pelos restantes vereadores seus correligionários, convocou um comício para dar conhecimento à população dos seus actos e ouvir a opinião da assembleia, porque estavam a lutar com sérias dificuldades para continuar a administrar a Câmara. Esta atitude mereceu a crítica, dos Progressistas, que haviam estado na presidência do Município.
Ainda neste ano, fez parte da comissão que elaborou o relatório para o Governador Civil substituto.
Entretanto, em 1881, foi proposto para a presidência da Câmara.
Em acta da sessão da Mesa da Santa Casa da Misericórdia, de 28 de Julho de 1885, encontramos lavrado um despacho favorável ao pedido de António Maria Albino, para poder remover, para local mais apropriado, os Passos do Senhor.
No dia 3 de Setembro deste ano, António Maria Albino considerou ser urgente a realização de uma reunião geral para tratar da alienação e aquisição de alguns bens imóveis, para bem da Irmandade e da própria comunidade em que ela estava inserida.
No ano de 1886 fez parte da Assembleia Eleitoral de Nossa Senhora Anunciada.
Na Santa Casa da Misericórdia concorreu ao cargo de Tesoureiro e viu-se derrotado, no ano de 1872; venceu a eleição para Conselheiro em 1874, não voltando a ser eleito no ano seguinte; no entanto, em 1876, surge de novo como Provedor com apenas 14 votos. Em 1880 não conseguiu votos suficientes para o cargo de Conselheiro, e em 1883,apesar de eleito Provedor com 41 votos, escusou-se, alegando motivos da vida particular. Em 1884 foi eleito Tesoureiro com 27 votos, não tornando a candidatar-se a qualquer cargo na Santa Casa.
Faleceu no dia 30 de Julho de 1912.
ALBINO, José Maria da Rosa: Em Setúbal, as forças políticas locais eram coordenadas pelas famílias detentoras da liderança económica da cidade, apoiadas pelos chefes políticos nacionais, que manobravam o eleitorado e colocavam à frente dos destinos desta terra os homens que melhor serviriam os seus interesses pessoais. Estavam normalmente ligados aos conservadores que, na sua perspectiva, lhes proporcionavam mais estabilidade para manutenção dos negócios.
Durante longos anos, foi a família Corrêa que dominou a política Setubalense. No entanto, a família Albino, ligada, tal como os Corrêa, ao Partido Regenerador, pretendeu dominar o mundo económico e político da cidade de Setúbal desde 1860.
Tentou, através de Agostinho Albino e António Albino, chefiar a vida política Setubalense, mas sem êxito, pois os Corrêa tinham maior influência na cidade e na Santa Casa da Misericórdia. Algumas vezes os Albinos conseguiram cargos de relativa importância, mas apenas quando os Corrêa permitiam.
No entanto, o rumo político dos grandes da cidade mudou. E José Maria da Rosa Albino, filho de Agostinho Albino e de Maria Teresa Peres da Rosa Albino, nascido na freguesia de Nossa Senhora Anunciada, conseguiu realizar esse desejo.
Começou a sua carreira política no Partido Regenerador.
Em 1892 publicou o Roteiro da Cidade de Setúbal e foi nomeado para a comissão dos festejos do Antigo Círio de Setúbal, instituído em 1839.
Na Santa Casa da Misericórdia, concorreu, em 1893, ao cargo de Escrivão, obtendo apenas 20 votos, nos 158 possíveis. Em 1894 candidatou-se a Conselheiro, conseguindo apenas um voto, hipoteticamente o seu; no entanto, o seu nome ficou na mente dos outros Irmãos. A campanha eleitoral começara. Nos ano de 1896/1897 e 1897/1898 ocupou o cargo de Escrivão, sendo então eleito Provedor com 100 votos, sem qualquer opositor.
Em 1900 ainda continuava como Provedor da Santa Casa, sendo substituído por Amaro Torres nos anos de 1901/1902 e 1902/1903. Neste ano retomou as funções, mantendo o cargo até Julho de 1907, quando foi eleito Henrique Augusto Pereira. Não regressou à administração da Misericórdia pois, embora fosse novamente eleito Provedor em 1909, recusou exercer o mandato.
Faleceu no dia 2 de Setembro de 1941.
ALMEIDA, António Mendes de: Bacharel em direito, candidatou-se ao cargo de deputado pelo círculo de Setúbal, no ano de 1868. Terminado o acto eleitoral no dia 22 de Março, os resultados , oram: 878 votos para o Dr. Aníbal Alvares da Silva, candidato ministerial, e 710 para António Mendes de Almeida, sem conotação política.
Não voltou a concorrer por Setúbal.
ARAÚJO, Manuel José de: Em 1866 foi eleito Escrivão da Mesa da Santa Casa da Misericórdia.
No dia g de Julho de 1879, quando se realizaram as eleições para a Mesa da Misericórdia, venceu a lista da oposição, que propôs para Provedor António Joaquim Corrêa e para secretário Manuel José de Araújo.
No dia 5 de Novembro de 1880, passou a integrar a comissão incumbida de fazer o levantamento, das necessidades mais prementes da cidade de Setúbal, a entregar ao Dr. Vicente Monteiro, Governador Civil substituto do Distrito de Lisboa, aquando da sua visita ao concelho.
No início de 1881, a vereação estava constituída por 4 Regeneradores e três Progressistas. No entanto, Manuel José de Araújo, embora inserido no grupo regenerador, apoiava geralmente os Progressistas, dando-lhes a maioria quando necessitavam de tomar decisões importantes. Então, os Progressistas, tentaram colocá-lo na presidência, e conseguiram-no com os seus três votos mais o do interessado, contra os três votos dos Regeneradores. Uma vez que Manuel José de Araújo entrara como substituto e não como efectivo, a eleição foi anulada.
Neste ano, por sugestão do director do Liceu, Campos Rodrigues, o vereador Manuel José de Araújo, apoiado por Joaquim Rasteiro, conseguiu fazer aprovar por unanimidade o pedido de criação de uma escola secundária, em substituição do Liceu Municipal que, desde 1857, funcionava em Setúbal.
No ano de 1883 foi eleito vereador efectivo na lista apoiada pelos Regeneradores, mas continuou a apoiar as propostas dos Progressistas.
Campos Rodrigues diz: "Manuel José de Araújo foi o único que, nas poucas sessões a que assisti, durante todo o ano de 1883, era o espectro dos vereadores suburbanos, que infelizmente predominaram na Câmara e esbanjaram os dinheiros da cidade". Referia-se a Joaquim Rasteiro, residente em Azeitão, e a Maurício Carlos Martins de Oliveira, muito ligado a Palmela e Azeitão, os quais representavam na Câmara Municipal as terras mencionadas.
ARROBAS, António Maria Barreiro: Natural do Alentejo, cedo foi para Lisboa onde se formou e estabeleceu, chegando a ocupar o cargo de Conselheiro. Regenerador, muito ligado a Fontes Pereira de Melo, fez carreira política como deputado e membro de alguns Governos.
Arrobas de nome e de peso, a ele se refere, satiricamente, Rafael Bordalo Pinheiro no seu Álbum de Glórias:
"0 seu nome é Arrobas.
Os seus pés são dois quintais. O seu todo é uma tonelada".
O excesso de gorduras era tanto que Bordalo Pinheiro considerava que, "pela designação e pelas tendências […] para a circunferência […]", o Conselheiro formava um todo uniformizado, pois era "Arrobas na figura, nos gestos, nos raciocínios e nas sílabas".
Nas eleições de 18 de Setembro de 1870, candidatou-se a deputado pelo círculo 80, com o apoio do anterior deputado, Aragão Mascarenhas, contra o Dr. Jacinto Nunes, candidato proposto pelo Governo, então regenerador.
O Conselheiro Arrobas venceu porque tinha o apoio dos ricos proprietários do círculo 740, obtendo 1775 votos contra 908 do seu oponente.
No ano de 1871, após dissolução da Câmara dos deputados, voltou a candidatar-se, sem oposição, e obteve 2202 votos.
Em 1878 propôs-se de novo pelo círculo de Setúbal (agora 101), sem oposição, e obteve 2093 votos. Teve o apoio do Dr. Rodrigues Manitto.
No dia 4 de Agosto de 1878 foi eleito por Setúbal, como procurador à Junta Geral do Distrito.
Em 1879, o recém-criado Centro Político, presidido pelo Dr. Rodrigues Manitto, declarou-se opositor do deputado Arrobas. O Dr. Rodrigues Manitto mudava, assim, o seu rumo político, pois apoiara António Maria Barreiro Arrobas, em outros actos eleitorais.
O Conselheiro concorreu contra António de Campos Valdez, progressista, proposto pelo Governo e pelo Centro Político.
O Conselheiro Arrobas aproveitou, para a sua campanha eleitoral, o apoio dos Corrêa, seus correligionários e recém-vencedores na polémica da água. No domingo, dia g de Julho de 1879, o Conselheiro Arrobas chegou à estação onde era esperado pelas filarmónicas Capricho, Firmeza de Setúbal e Amizade de Alcácer do Sal, acompanhadas de muito povo, seguindo-se festejos vários.
O mesmo político venceu as eleições, embora sendo oposição ao governo central e à administração local, onde dominavam os Progressistas.
Os Regeneradores tentavam assim dominar assim a cidade de Setúbal, através do Conselheiro António Maria Barreiros Arrobas, "braço forte do vice-rei António Maria de Fontes Pereira de Melo, que trazia num constante fervedoiro as urnas Setubalenses".
A vitória do Conselheiro verificou-se nas Mesas de Santa Maria, S. Julião, Azeitão e Palmela. Em Alcácer do Sal perdeu António Maria Arrobas, por 352 votos contra 645 do candidato progressista, António de Campos Valdez. Não são indicados os resultados de S. Sebastião e Anunciada, freguesias onde não se deve sequer ter efectuado votação, embora fossem as mais populosas (4830 e 5085 habitantes, respectivamente).
Após serem divulgados os resultados da votação e conhecida a vitória do Conselheiro Arrobas, este desfilou acompanhado de cavaleiros e bandas de música, pelas ruas do centro da cidade (nem Troino nem Fontainhas foram agora visitadas), e dirigiu-se aos Paços do Concelho, onde recebeu o diploma de deputado sob as ovações de todos os que o acompanharam. Foi então distribuído por todos os eleitores um panfleto, no qual o Conselheiro Arrobas agradecia a prova de confiança que lhe fora dada, ao fazê-lo eleger novamente deputado pelo círculo.
Afirmava ainda estar convencido de que finalmente tinham terminado as querelas partidárias em Setúbal e de que o povo estava unido pelos mesmos ideais.
Com a subida do Partido Regenerador ao poder, no ano de 1881, o Progressista Setubalense Dr. Aníbal Alvares da Silva Júnior foi exonerado do cargo de administrador do Concelho de Cascais, facto considerado como vingança do Conselheiro Arrobas, "por ter sido guerreado na última eleição pelo Dr. Aníbal, quando este era administrador de Setúbal, e aquele candidato oposicionista".
Ainda em 1881, os Regeneradores, alarmados com a aceitação que os Republicanos tinham na cidade, pediram o apoio dos Progressistas e o próprio Conselheiro Arrobas não se quis candidatar, receando os resultados.
Era então Governador Civil do Distrito de Lisboa.
O próprio candidato republicano, Latino Coelho, elogiou o Conselheiro Arrobas no seu manifesto eleitoral, em 1889.
A partir de então o nome do Conselheiro não volta a ser referido em Setúbal.
Ao aludir aos censos da população, Rafael Bordalo Pinheiro considera que, .entre as medidas radicais próprias para assinalar a passagem do Snr. Conselheiro Arrobas pelas "províncias da pública administração" destaca-se a que teve por fim submeter à numeração toda a sociedade portuguesa desde 1 a 4 milhões, obrigando todos os naturais do país a trazerem ao pescoço uma coleira com o respectivo algarismo - sem guizo".
Ele próprio se intitulava de Tigre, cognome a que Rafael Bordalo Pinheiro acrescentou "Peso antigo com medidas novas", caricatura do seu próprio aspecto físico, mental intelectual e político.
ARÔCHA JÚNIOR, Joaquim Augusto: No dia 10 de Janeiro de 1881, Joaquim Augusto Arôcha, presidente da Associação Setubalense das Classes Laboriosas, convocou os Setubalenses, para os alertar contra a formação de uma "associação jesuítica", intitulada Associação Protectora dos Operários, e conjuntamente decidirem "da atitude que o Partido Liberal de Setúbal tem a tomar perante a companhia jesuítica que ameaça invadir os mais recônditos lugares do nosso país".
Em finais de 1881, os Republicanos contavam já com 25% dos eleitores de Setúbal, enquanto que em Palmela não ultrapassavam ainda os 3%.
Assim, Arôcha Júnior integrou a lista proposta por um grupo de Republicanos e Progressistas da ala esquerda, visando a conquista de alguns lugares na Câmara Municipal.
No dia 14 de Novembro de 1888, foi o primeiro vereador eleito para a Câmara Municipal, com 1870 votos.
No ano de 1889 voltou a ser eleito para o mesmo cargo.
No dia 6 de Novembro de 1892, o seu nome foi um dos indicados pela comissão composta por delegados das Comissões Paroquiais, mas não consta entre os eleitos.
Fez parte das comissões organizadoras do Comício Liberal que se realizou em Setúbal, no dia 30 de Dezembro de 1894.
Em Abril de 1895 realizou-se na cidade uma reunião republicana, presidida pelo jornalista Gomes da Silva, membro do directório nacional. Foi secretariada pelos Republicanos Setubalenses Paulino de Oliveira e Romão Libânio da Silva. A abrir a sessão, o presidente fez o historial do movimento republicano e do processo de fundação do partido, tendo o cuidado de realçar a lealdade de todos os elementos que integraram a Coligação Liberal. A finalizar teve lugar o acto eleitoral. Entraram na urna 163 listas, tendo sido eleitos, por grande maioria, para a Comissão Municipal Republicana, os seguintes cidadãos:
Efectivos:
Joaquim Augusto Arôcha Júnior Manuel Livério
António Marcelino Igreja
Mamede Mendes Fialho
Henrique Carlos Junqueiro
Agostinho José Vidal
Manuel de Santana Coelho
Substitutos:
Vicente Francisco Ribeiro
José Manuel Miguéis
Amaro Moreira Torres Júnior António José Marques
José da Rocha
Manuel Pedro Soares
Joaquim dos Santos Fernandes
No final da reunião, alguns dos presentes fizeram um apelo ao Directório para que utilizasse as suas influências, de modo que se conseguisse rapidamente resolver os problemas dos trabalhadores Setubalenses.
AZEVEDO, Vicente José Lopes de: No ano de 1876 (presidia à Câmara o Dr. Rodrigues Manitto) foi concedida licença a Vicente José Lopes de Azevedo para distribuir água em pipas, pelas ruas de Setúbal.
O problema de concessão do monopólio da água a Vicente José Lopes de Azevedo Júnior, autorizado a vendê-la a 10 réis cada 20 litros, no Inverno, e a 15 réis, no Verão, provocou grande polémica, uma vez que os monopólios eram proibidos "pela lei fundamental do Estado e eram contrários à liberdade da indústria e do comércio". Apesar disso, a Câmara continuou a recusar as propostas, que outros indivíduos faziam, para venda de água.
Em fins de Novembro de 1878, o fornecedor autorizado fundou uma companhia com mais 4 sócios:
Joaquim Teixeira de Macedo e Castro
Venâncio Olímpio Ferreira Torres*
António de Sousa Brito Maldonado Bandeira*
José Gonçalves da Cunha
* Aparecem ambos na lista para a Câmara, composta por Irmãos da Misericórdia, em 1877, datada da 20 da Novembro. O 1º vai aparecer, no dia 22, na lista proposta pelos Progressistas.
Esta sociedade foi criada para explorar o fornecimento de água destinada ao consumo público, e nela se aplicou o capital de 20.000 000 réis.
Os irmãos Corrêa, que antes eram vendedores de água em pipas, não aceitaram a decisão e envidaram todos os esforços chegando mesmo a incentivar a rebelião popular para que o monopólio fosse retirado.
Em 3 de Julho de 1879, A Gazeta Setubalense publicou a certidão da acta da Câmara, na qual se lia a rescisão do contrato com Vicente Azevedo, sem indemnização, pois a água fornecido era insuficiente no Verão. Aquele concordou com a decisão da Câmara, pelo que se verificou regozijo entre a população.
No ano de 1885 o seu nome apareceu na lista de candidatos substitutos à Câmara de Setúbal, tendo obtido 877 votos.
Em 1886 fez parte da Assembleia Eleitoral de S. Sebastião e Santa Maria.
BANDEIRA, António de Sousa Brito Maldonado: Em 1877 aparece-nos, pela primeira vez, ligado à política local, numa proposta de lista para a vereação da Câmara, composta por Irmãos da Misericórdia.
Em 1878 era um dos sócios de Vicente José Lopes de Azevedo Júnior, para a distribuição de água à cidade de Setúbal.
No ano de 1883, integrou a lista apresentada, no dia 3 de Novembro, véspera das eleições, por um grupo que se afirmava "sem feição partidária", mas continha Regeneradores e Progressistas.
Fez parte, como comendador, do grupo que formou a Assembleia Eleitoral de S. Julião, no ano de 1886.
No dia g de Julho de 1887 foi eleito Provedor da Santa Casa da Misericórdia com apenas 16 votos, contra 4 do seu opositor José António Januário da Silva (votaram 20 Irmãos), mas pediu escusa do cargo.
BATISTA, António José: No ano de 1889 iniciou a construção de um bairro na parte ocidental da cidade, próximo da estação do Caminho de Ferro e da praça de touros, a que o povo chamava de Bairro Batista, em sua homenagem.
Em acta da Mesa da Santa Casa da Misericórdia, de 8 de Junho de 1892, encontramos vários donativos registados. Entre os benfeitores nomeados, acha-se António José Batista, "proprietário e negociante desta cidade", que cedera, em benefício do hospital, a "importância da factura de madeira, forros e fasquiado que havia fornecido, no valor de 50 000 réis". Como prova de gratidão, foi aprovado um voto de louvor e agradecimento por "tão benemérita acção".
No dia 23 de Outubro de 1892, realizaram-se eleições para deputados.
Apresentaram-se dois candidatos monárquicos: António José Batista, apoiado pelos Progressistas, e Jaime Artur da Costa Pinto, proposto pelo Governo, através do administrador do concelho, Maurício Carlos Martins de Oliveira e apoiado pelos conservadores da cidade, ligados ao Partido Regenerador, a que se juntou o Progressista António Rodrigues Manitto.
Os Republicanos mais radicais não aceitavam apoiar António José Batista por este ser monárquico. Assim, juntaram-se aos seus correligionários do resto do país, numa tentativa de luta contra os vícios eleitorais instituídos. Convocaram uma assembleia democrática para o dia 28 de Setembro, na qual elegeram uma comissão com a incumbência de elaborar o Manifesto dos Abstencionistas, que dirigiram a todo o país. A comissão era composta por:
Afonso Lemos
António Costa Teixeira de Magalhães
António Fernandes Júnior
António Joaquim Lopes
António da Silva
Brito Monteiro (pela Bandeira Portuguesa)
Feio Terenas (pela Batalha)
Francisco Brandão Cordeiro
Francisco Paulino de Oliveira (Setubalense)
Gil Carneiro (pelo Futuro)
Isidoro Viana
João Bonança
João dos Santos Silva
Joaquim Martins de Almeida Lopes
Neste manifesto apelavam à abstenção, por considerarem ser a única forma de não colaborar nas medidas gravosas que o Governo continuava a implementar. Para justificar a atitude que decidiram tomar, recordavam que, sendo o voto a melhor arma do povo, os eleitores só deviam acorrer às urnas quando fosse possível a cada cidadão exercer esse direito sem boicotes nem burlas.
Esta decisão de parte dos Republicanos prejudicava a eleição de António José Batista, que necessitava do voto da linha revolucionária de Setúbal.
Entretanto, os abstencionistas mudaram a sua estratégia eleitoral e, no dia 21 de Outubro, o Republicano Eduardo Maia, que concorrera às anteriores eleições e ganhara no concelho de Setúbal, esclareceu a população de que se não recandidatava, pois a fraude estava ainda radicada neste círculo. Mas aconselhava os Republicanos
a votar em João Pinheiro Chagas, infeliz expatriado, vítima da mais repugnante perseguição das autoridades monárquicas".
Os ânimos agitavam-se na cidade, uma vez que o candidato governamental era apoiado pelo administrador do Concelho Maurício Carlos Martins de Oliveira, homem muito contestado, face aos incidentes verificados na cidade aquando do Ultimatum Inglês. A oposição, especialmente António José Batista, acusava-o de ser o causador dos tristes incidentes de 2 de Março de 1890, quando o povo de Setúbal, como represália, tentava evitar que navios ingleses carregassem produtos nacionais no porto.
Assim, durante a campanha eleitoral de 1892, António José Batista aproveitou a animosidade existente e utilizou aqueles acontecimentos contra o seu opositor. Fez distribuir pela cidade panfletos tarjados de preto, com a data de 2 de Março de 1890 em letras vermelhas. Almeida Carvalho registou a sua opinião com uma simples
nota: "Pasquim afixado nas pragas e ruas".
Terminado o acto eleitoral, verificou-se que António José Batista vencera as eleições no concelho de Setúbal por 681 votos, tendo ganho na cidade por 845, mas veio a perder o círculo, em consequência da votação de Alcácer do Sal. Nesta secção de voto, o Regenerador José Maria dos Santos, dono da herdade de Palma, dominava o eleitorado que, na quase totalidade, dependia do seu potentado económico. Ali, o candidato governamental conseguiu 1055 votos, contra 126 de António José Batista e 6 de Pinheiro Chagas.
O resultado, tal como todo o processo eleitoral do círculo, foi amplamente contestado, pois o presidente da Mesa Eleitoral de Alcácer do Sal fora substituído, no momento das eleições, por um homem da confiança do administrador do concelho. Foram ainda colocados, por detrás da Mesa, dois homens com sacos contendo votos com o nome de Jaime Artur da Costa Pinto, que entregavam a todos os eleitores na altura da votação. Estes eram obrigados a introduzir o boletim na urna ou a trocá-lo na presença da Mesa. Poucos tiveram coragem de efectuar a troca. A própria urna fora feita na véspera das eleições, com fundo facilmente violável e depositada durante a noite, com os votos do dia anterior, numa casa junto à Igreja.
António José Batista comunicou ao Rei estes acontecimentos, assim como a permanência de dois homens (um dos quais era vogal da Mesa) na Igreja, durante a noite, para poderem trocar os votos já introduzidos na urna. O Rei prometeu fazer justiça e remeteu o caso ao Ministro do Reino, que não tomou quaisquer providências. Mo dia seguinte, pelas dez horas da manhã, as autoridades prenderam os dois indivíduos, escondidos na Igreja desde a véspera, mas a burla já estava feita e o administrador do concelho, longe de remeter os prevaricadores ao tribunal, mandou-os para casa, sem qualquer admoestação.
O acto eleitoral terminou com os seguintes resultados: Jaime Pinto 2.487 votos; António José Batista 2.239; João Chagas 78; Pinto Coelho 21; Cândido Figueiredo 3; Simões Raposo l e Alfredo Alves l.
No dia 6 de Novembro de 1892, realizaram-se eleições para a Câmara Municipal, nas quais António José Batista decidira "jogar forte".
Fez distribuir um manifesto não assinado, cujos autores se identificavam com a causa de António José Batista, mas se afirmavam independentes politicamente, embora a lista que propunham integrasse homens de vários partidos. O seu partido era, simplesmente, segundo o texto que apresentavam ao eleitorado Setubalense, o das necessidades populares e o da vontade do povo de Setúbal.
A comissão composta por delegados das Comissões Paroquiais propôs, como oposição ao grupo de António José Batista, uma outra lista que integrava Progressistas e Republicanos descontentes com a actuação de António José Batista, enquanto candidato a deputado.
A sua constituição era a seguinte:
António Maria de Campos Rodrigues
Joaquim Augusto Arôcha Júnior
Henrique Augusto Pereira
António Dias Quintans
Justino Pereira de Lima
José Joaquim Trindade
João José Salgado Júnior
José Cândido Fernandes Costa José Maria de Freitas
Leonardo Duarte Júnior
José Maria Peres
João Marques Câncio
Realizadas as eleições, os resultados foram os seguintes:
Efectivos:
António José Batista 2.069 votos
José Manuel Corrêa 1.746
Francisco Augusto de Assis 1.650
Alfredo Leite Marques 1.519
Eduardo Dinis 1.489
João Augusto dos Santos 869
António F. da Silveira Bogarim 699
Substitutos:
Henrique Carlos Junqueiro 2.112
Francisco Maria Lino 1.715
José Maria da Silva 1.687
António Ferreira Alves Passos 1.627
Amaro Moreira Torres 1.511
Manuel Simões de Oliveira 1.841
Carlos Artur Afonso 817
Vencera, portanto, a proposta de António José Batista. Todavia, os problemas com Maurício de Oliveira continuaram, pois o Presidente da Câmara envidou todos os esforços para que o Governo procedesse à substituição do Administrador do Concelho. A Folha do Povo anunciou, no dia 2 de Dezembro de 1892, que em Setúbal lavrava "grande descontentamento por causa de ter voltado para ali o antigo administrador Maurício de Oliveira". Face à decisão tomada pelo Governo, contra a vontade do povo, o articulista alertava a população para a hipótese de se desencadearem na cidade .. acontecimentos graves, provocados pela imprudência de quem atendeu mais à vaidade do dito administrador do que à dignidade do povo Setubalense".
No dia 12, A Folha do Povo publicava um artigo, sob o título Setúbal, assinado por Salmonete, no qual o autor ridicularizava as relações entre António José Batista e Maurício de Oliveira, conotando-os com os dois grupos político-económicos que se digladiavam na cidade pela conquista do poder.
Em 1893, a Câmara, presidida por António José Batista, deu todo o apoio à Comissão incumbida de resolver o problema dos trabalhadores afectados pela crise da indústria de conserva de peixe.
Neste mesmo ano, na abertura da sessão inaugural do novo Hospital da Misericórdia, o chefe de protocolo colocou à direita do Provedor o chefe militar, coronel Azevedo Coutinho. O Echo de Setúbal considerava, então, que o lugar de honra pertencia, por inerência de fungões, a António José Batista, representante dos Setubalenses.
Em 1894, António José Batista voltou a candidatar-se ao cargo de deputado pelo círculo de Setúbal. Campos Rodrigues, director e editor de O Distrito, embora seu correligionário, não o apoiou. No dia 28 de Janeiro, este jornal publicou uma declaração de António José Batista, na qual este se afirmava disponível para desistir da candidatura, se o Governo concedesse à cidade os melhoramentos de que a cidade necessitava.
Como nota do redactor, Campos Rodrigues esclarecia os leitores de que António José Batista fora aconselhado por importantes elementos do seu partido a desistir da candidatura, em troca de favores para a cidade sadina. Pena era que fizesse a declaração, depois de ser acusado pelos Republicanos.
A partir de então, as divergências entre Campos Rodrigues e António José Batista começaram a avolumar-se e, tal como elas, a guerra jornalística, a que desde então assistiremos, era irreversível.
Ao ler os vários periódicos, locais e nacionais, que escreveram sobre o processo eleitoral em Setúbal, verificamos que a confusão, a indecisão e mesmo a inconstância e insegurança dos responsáveis políticos dominavam na cidade.
Os Regeneradores, na ânsia de verem eleito o seu candidato Joaquim Pedro de Assunção Rasteiro, conseguiram dos correligionários então no Governo, através do Ministro do Reino, que fosse solicitada a desistência de António José Batista, em troca da satisfação de alguns melhoramentos na cidade.
Os Progressistas aconselharam António José Batista a aceitar a proposta dos Regeneradores, conscientes de que tal atitude propiciaria enormes vantagens ao seu partido. No entanto, António José Batista, que não esquecia a injusta derrota sofrida nas anteriores eleições, fruto da fraude verificado em Alcácer do Sal, recusou as propostas feitas pelos adversários políticos. Então ele estava convencido do apoio dos Republicanos, com quem contava vencer o seu opositor e inimigo de longa data, não apenas no campo nacional, mas até na própria Câmara de Setúbal.
Por seu turno, na reunião republicana efectuada no teatro Bocage, Romão Libânio da Silva criticara António José Batista por não ter aceitado a proposta feita pelo Ministro do Reino, "pela vaidade de querer ser deputado". Face a tais afirmações, o Presidente da Câmara fez uma declaração pública, na qual explicava como as negociações com o representante do Governo haviam decorrido. São estas as suas palavras: "Sua excia, numa conferência que me solicitou, nada me ofereceu para interesse público, e estou pronto a desistir imediatamente da minha candidatura, em favor de quem quer que seja, se o Governo se obrigar a realizar os melhoramentos importantes de que Setúbal tanto carece".
As declarações de António José Batista provocaram reacções muito negativas em alguns Progressistas.
Campos Rodrigues foi o primeiro a manifestar-se em O Distrito, de 28 de Janeiro, numa local intitulada Movimento Eleitoral. Neste texto declarava publicamente o seu apoio ao candidato regenerador, José Maria dos Santos, que sempre considerara inimigo de Setúbal. No mesmo artigo culpava António José Batista de não ter querido efectuar a desistência" da sua candidatura com vantagem para o seu partido", oferecendo-a depois sem essa vantagem", numa perfeita atitude de cedência aos Republicanos. O artigo terminava com um desabafo acusatório: "Isto não é política, é inexperiência, é loucura, é balbúrdia, é tudo quanto queiram, menos proceder com acerto, porque se procedeu exactamente à vontade do Snr. Maurício. (... ) Ele esfrega as mãos, porque, se é incapaz de dirigir a política em Setúbal, encontra adversários ainda mais incapazes. Anos de luta vão ser derrubados num dia só!". Campos Rodrigues considerava demagógico o facto de António José Batista oferecer terrenos para a construção de uma igreja e uma escola, na Quinta do Anjo.
No entanto, a oposição progressista, apoiada por alguns Republicanos, aproveitou a ocasião para recordar alguns episódios desagradáveis, de que foram responsáveis cidadãos que, naquele momento, estavam a solicitar o voto do povo. Para conseguir sensibilizar cada eleitor, os apoiantes de António José Batista dirigiam-se-lhe por freguesia, de acordo com as suas necessidades e aspirações, num tom que lhe fosse caro e lhe captasse o voto. Na generalidade, recordavam que Joaquim Rasteiro era o candidato dos Grandes e pretendia um lugar que lhe permitisse aumentar os seus provemos. Em contrapartida, António José Batista era o candidato dos Pequenos, que sempre protegera e ajudara, mesmo com dádivas pessoais, e não precisava do dinheiro; era um rico proprietário, que só pensava em conseguir melhoramentos para a sua cidade. Ao dirigirem-se aos eleitores de S. Julião, utilizaram um trocadilho com o nome do candidato governamental, ao referirem que a consciência dos cidadãos devia estar "acima de toda a pressão, superior a quantos sistemas de corrupção que RASTEIRAMENTE" eram utilizados contra o povo. E concluíam: "É necessário demonstrar a esses que pretensiosa e estultamente se jactam de GRANDES desta terra, e que se vangloriam de poder comprar a Canalha a troco de alguns mil réis, que sois mais dignos, que sois mais nobres do que eles, que o vosso brio e pundonor, a vossa dignidade, não tem comparação possível com a dos miserandos, com a dos MAURÍCIOS e quejandos".
Na folha volante destinada à população residente na freguesia da Anunciada, mais desfavorecida e menos letrada, a linguagem utilizada era mais popular. Nela se salientava a origem humilde do candidato António José Batista, filho do povo, que apenas com o povo se preocupava. Mais uma vez se recordavam os célebres incidentes de 2 de Março de 1890 e se alertava para os perigos que adviriam da eleição do candidato Regenerador: "Se por desgraça nossa a RASTEIRAL candidatura triunfasse veríamos em breve administrador do concelho, um MAURÍCIO e com ele a repetição do dia 2 de Março".
Mas, para evitar compromissos pessoais, os apoiantes de António José Batista atribuíam o manifesto a "um grupo de eleitores", que, de novo, recordavam os incidentes de Alcácer e apelavam ao brio dos Setubalenses, não permitindo que os grandes de Alcácer escolhessem o deputado por Setúbal, tanto mais que aqueles cidadãos estavam dominados pelo "grande senhor feudal", que os obrigava a votar no seu candidato.
Em simultâneo, os apoiantes de António José Batista propuseram, para Delegados ao Colégio Eleitoral destinado à eleição de pares, os seguintes cidadãos efectivos:
José António Januário da Silva proprietário José Manuel Corrêa negociante e proprietário João Augusto dos Santos proprietário.
Então, os Republicanos, tal como os Progressistas, estavam divididos. O grupo radical demarcou-se da proposta progressista e decidiu definitivamente optar pela apresentação de um candidato próprio, uma vez que se aproximava o Congresso.
No dia 12 de Abril, a Gazeta Popular, porta-voz dos Progressistas lisboetas, sob o título Questão Oportuna, esclarecia o eleitorado acerca das razões que estavam em causa naquele acto eleitoral; dava a conhecer que a ele haviam concorrido: António José Batista, progressista, e Joaquim Rasteiro, regenerador proposto pelo Governo, e ignorava a candidatura republicana.
Após enumerar as qualidades do candidato progressista, sem atacar o seu opositor, o articulista referia também a sua fortuna pessoal, garante de idoneidade política e económica, e ainda as suas qualidades filantrópicas e ideológicas. Não se esqueceu de referir a obrigação moral do povo Setubalense de entregar àquele candidato .. o diploma de deputado por Setúbal", a ele, que fora a grande vítima da fraude eleitoral de 1892, na vila de Alcácer do Sal.
No dia 13 de Abril, o mesmo periódico voltou a falar de Setúbal, dedicando-lhe toda a primeira folha, duas páginas de apologia a António José Batista e de crítica cerrada a Campos Rodrigues, director de O Distrito, porque nele escrevia, ou permitia que escrevessem contra o seu correligionário António José Batista, e a favor do seu sempre opositor Joaquim Rasteiro. Recordava todas as vezes que Campos Rodrigues elogiara António José Batista, e lamentava que aquele jornalista tivesse uma memória "tão curta".
Na véspera das eleições, um semanário dirigido por alguns Republicanos fazia a apologia do candidato progressista, António José Batista, e recordava ter sido ele que construíra a praga de touros e o bairro destinado às classes mais desfavorecidas. No entanto, não deixava de reconhecer serem verdadeiras algumas acusações feitas pelos conservadores, especialmente a de que o candidato não era "uma inteligência superior, manifestada em trabalhos científicos ou literários, nem um orador de primo cartelo que fosse brilhar no parlamento pelos seus discursos elegantes e aprimorados"; mas também, não era de "oradores fluentes que precisavam, mas sim de homens independentes, sem compromissos, sem ligações, que tomassem a sério os negócios do Estado, que se não curvassem às imposições dum ministro ou de qualquer potentado". Ora, António José Batista, homem rico como era, não necessitava de "andar pelas secretarias, de chapéu na mão, suplicando benesses". Mas a grande arma utilizada pela oposição foi mais uma vez "a lição aos pretendidos GRANDES desta cidade".
As eleições realizaram-se no dia 15, e novamente Alcácer do Sal foi palco de "burla eleitoral", fazendo eleger o homem derrotado na cidade de Setúbal, na qual apenas recebeu 470 votos, enquanto que António José Batista conseguira 1.087. Palmela, e especialmente Azeitão, terra natal de Joaquim Rasteiro, ajudaram à diminuição da diferença entre os dois candidatos, mas voltou a ser Alcácer a decidir a vitória do Regenerador. Feito o apuramento final, os resultados do círculo foram: 2.447 votos para Joaquim Pedro de Assunção Rasteiro, 1.885 votos para António José Batista e 84 votos para o Dr. Teófilo Braga.
No dia 18 de Dezembro, uma comissão, composta por António José Batista, Eduardo Dinis, António Ferreira Alves Passos, Francisco José Mota, João José Salgado Júnior, Leonardo Duarte Júnior, J. A. Arôcha Júnior, Manuel José de Sousa Ferreira, Manuel João de Almeida, Manuel de Padilha, Romão Libânio da Silva, enviou convites a várias personalidades Setubalenses, para uma reunião destinada a formar uma comissão organizadora do comício das oposições.
Contudo, no dia 24 de Dezembro de 1894, A Folha do Povo publicou um artigo, sob o título Ridículos, no qual ridicularizava a pessoa de António José Batista e o intitulava de ingénuo, por ter caído na asneira de entrar na política e acreditar no Mariano (articulista de O Diário Popular, segundo informação de A Vanguarda, de 27 de Dezembro, de 1894), que apenas se queria servir dele.
No dia 25 de Dezembro, A Vanguarda publicava uma notícia, em que o autor, não identificado, criticava insultuosamente o presidente da edilidade Setubalense, António José Batista. Acusava-o de ceder a promessas do Governo, desde que conseguisse evitar a realização do comício da oposição, que os detentores do poder receavam.
Mas, desentendimentos entre Republicanos e Progressistas, especialmente entre Romão Libânio da Silva e António José Batista, impediram a realização do comício na data marcada. Foi então distribuído um panfleto, que explicava a razão do adiamento de tal manifestação política.
No dia 27, foi distribuído um outro panfleto, assinado por elementos das anteriores comissões, no qual acusam António José Batista de ter "langado o escárnio sobre Setúbal, levando a Lisboa um grupo para dar vivas ao Rei, e ter protestado contra o Acordo Republicano de Badajoz".
No dia 27, A Vanguarda publicou um artigo, que acusava o "jornalista Mariano" de ter convencido António José Batista a candidatar-se duas vezes a deputado e uma a vereador, embora houvesse declarado nunca ter interferido nos assuntos relativos à política Setubalense. Este periódico, ao referir-se ao jornalista em causa, afirmava: "Mas, afinal, o advogado do sindicateiro Batista, vendedor de azeites e negociador de chulipas, está perfeitamente à sua altura. Irmanam-se excelentemente".
"Daqui não há que fugir. O Snr. Mariano é que teceu toda esta enredada meada, de acordo com o Snr. João Franco, comprando pelas largas benesses que já apontámos o ínfimo Snr. Batista das pipas de água e filarmónicas".
"O articulista do Diário Popular, o decaído Snr. Mariano, chama em seu auxílio O Distrito, semanário Setubalense, redigido pelo Snr. Campos Rodrigues, um velho dementado, um perfeito catavento político. Este indivíduo que já defendeu a candidatura do Snr. Batista e que já a atacou, torna agora a defendê-lo",
A Vanguarda aproveitou o artigo para lamentar o mutismo do Correio da Noite, órgão do Partido Progressista, acerca da atitude tomada por António José Batista, ao .. atraiçoar a Coligação Liberal, pois devia esclarecer os leitores sobre a permanência, ou não, do Presidente da Câmara de Setúbal, no Partido Progressista.
No dia 28 António José Batista, noutro panfleto, respondeu aos Republicanos que o acusavam e explicou as razões que o levaram a desligar-se do comício "chamado da concentração liberal". Face às acusações, "tão infundadas", viu-se perante o dilema de "ou renunciar à parte efectiva" que lhe "competia no comício como um dos membros da oposição monárquica, ou desligar-se completamente das suas ligações políticas".
Nas palavras de António José Batista vislumbramos uma crítica, embora bastante velada, ao Partido Progressista, que lhe não deu o apoio esperado. No entanto, justificava a decisão que tomara, como .. necessária e fundada", porque aquele comício fora, "de princípio, de coligação liberal entre a oposição monárquica e a republicana" e acabou por se transformar numa reunião de "carácter exclusivamente republicano". Ao prestar-se "a tal propósito, trairia não só as suas convicções, mas ainda o seu Partido que nenhumas instruções lhe havia dado".
Como explicação da sua tomada de posição, invocou o facto de os convites serem assinados por "oito individualidades genuinamente republicanas", justificação suficiente para a sua exclusão, conjuntamente com os seus amigos. Considerava, também, que os seus correligionários, vindos de Lisboa para discursar, o fariam, apenas, por "pura delicadeza" e compreenderiam a sua atitude e a "lealdade" do seu procedimento, Aproveitou para referir que a não realização do comício no dia 23, como fora determinado, se deveu apenas "à leviandade de um cidadão republicano, que sem ouvir nem os seus colegas, nem os SEUS CHEFES por motivos só dele conhecidos, e de muitos suspeitados, retirou a participação de que a reunião seria celebrada naquele dia". Referia-se a Romão Libãnio da Silva, com quem tivera problemas no decurso dos trabalhos da comissão promotora do comício.
A Vanguarda, de 31 de Dezembro, publicou os dois comunicados já referidos (apelo à ordem e manifesto de António José Batista) e criticava, de novo, a actuação do Presidente da Câmara, por inconveniente e desconhecedora das realidades. Apelidava-o de exautorado presidente de um município Setubalense, que ainda se não convenceu do seu total descrédito". Ainda neste número referia-se amistosamente a O Elmano, periódico republicano".
Quando o comício se realizou, António José Batista proibiu os seus operários de a ele assistirem, facto que A Vanguarda criticou acerrimamente.
No ano de 1895, foi eleito vereador à Câmara Municipal, com 1241 votos (30 lugar da lista).
Neste mesmo ano António José Batista ofereceu 25 placas de Flandres para a construção de um Coro na Igreja de Jesus, pelo que foi registado um voto de louvor da direcção, em acta da reunião da Mesa da Santa Casa da Misericórdia.
No dia 24 de Maio de 1911, a Mesa da Santa Casa da Misericórdia decidiu que, logo que a situação económica fosse mais favorável, deveria também proceder-se à inauguração, naquela sala, dos retratos de João Ferreira Marques, José Augusto Cardoso de Moura, António José Batista e Braz da Cunha Teixeira.
BRAGA, João Ferreira: No ano de 1881, quando o Dr. Jacinto Nunes se candidatou a deputado pelo círculo de Setúbal, João Ferreira Braga, regenerador, apresentou-se como candidato governamental. Os Regeneradores, cientes da simpatia que os eleitores nutriam pelo candidato republicano, solicitaram o apoio dos Progressistas. O círculo de Setúbal era muito importante para os conservadores, mas, mesmo assim, o Conselheiro Arrobas não se quis candidatar, receando os resultados. O medo de que os Monárquicos Setubalenses estavam possuídos foi denunciado no comício republicano. O próprio manifesto eleitoral do candidato João Ferreira Braga o demonstra, detectando-se, no seu texto, a angústia e o desespero que os Regeneradores sentiam, receando as consequências da vitória dos Republicanos num círculo com as características de Setúbal: desenvolvimento económico e implantação dos ideais revolucionários. Se isso acontecesse instalar-se-ia na cidade um núcleo de contra-poder, muito difícil de debelar. Por isso, João Ferreira Braga utilizou todos os métodos, sem olhar a meios, para evitar essa "catástrofe".
Num dos documentos distribuídos à população, insinuava os inconvenientes que as inovações, introduzidos nas instituições existentes, provocaram no funcionamento normal das mesmas, chamava a atenção dos Setubalenses para os prejuízos que lhes adviriam se persistissem no .. erro de querer fazer prevalecer as opiniões reformadoras, pondo de lado os interesses e cómodos pessoais" e afirmava que só um candidato apoiado pelo Governo os podia livrar das "calamidades" provocados pela falta de sal, pelo abandono do porto, pela paralisação do comércio, pela falta de animação nas indústrias e pela esterilidade dos campos. Num acto de perfeito desespero exclamava: "é nesta situação melindrosa que vos ocorreu a fatal ideia de provocar conflitos, de vos constituirdes em oposição a todos os governos monárquicos!"
Depois de descrever as desgraças que cairiam sobre Setúbal se o candidato republicano fosse eleito, Ferreira Braga ameaçava com a hostilidade do Governo, caso os Republicanos vencessem as eleições no círculo. Seguidamente, utilizando um estilo interrogativo, desfiava um rosário de hipotéticas desgraças de que os trabalhadores Setubalenses, tarde de mais, se arrependeriam: "oh! chefes de família, operários que só do fruto do vosso trabalho tirais os meios de alimentar a esposa, os filhinhos ou os parentes enfermos, como quereis vós sustentar as vossas famílias quando esse trabalho vos faltar de todo?
Como respondereis à mulher, aos filhos, aos parentes de quem vós sois o único amparo, quando eles, morrendo de fome e tiritando de frio, sem um pedaço de pão negro que possam devorar, nem um farrapo com que cubram a triste nudez, elevarem sobre a vossa cabeça os braços descarnados e vos amaldiçoarem a vós e à vossa esturrada política que será a causa de tamanha miséria?
Tereis coragem bastante para resistir a essas justas increpações das inocentes vítimas que a exaltarão das vossas ideias tornou desgraçadas?
Ou sucumbindo de todo à fatalidade pendurar-vos-eis pelo pescoço como fez o desventurado sapateiro do postigo do Cais?"
Ao longo do texto, entrecruzando-se com uma demagogia primária, encontramos, permanentemente, o apelo à mudança de atitude, tendo em conta a situação, pois só o candidato do Governo possuía capacidade para evitar a desgraça que pairava sobre os Setubalenses. Sempre frisando que a vitória do candidato republicano reduziria a população desta cidade à miséria, Ferreira Braga concluía ser necessário que os Setubalenses se não deixassem envolver em "política de ideias novas".
A terminar o extenso texto, informava os eleitores de que o candidato regenerador cederia o subsídio de deputado em favor do círculo pelo qual concorria.
No final, extra-texto, aparecia .,uma noticia de Badajoz", assinada por um tal Perez: "Importante reunião clube ibérico, ontem à noite. Plano esperar proclamação república portuguesa, tumultos populares pretexto para invasão espanhola".
O fantasma da invasão espanhola era, assim, utilizado pelos Regeneradores como clímax do pavor que pretendiam instalar entre os eleitores menos esclarecidos. E, para concluir, o êxtase, a apoteose final do processo terrífico desencadeado: ..UM comunicado urgente", alentando para o perigo que a Republica representava para a religião, tão querida do povo Setubalense. Tal comunicado terminava com uma sentida e insinuante asseveração: ..protestamos contra o ateu herético republicano que teve a imprudência de ofender-nos nos nossos sentimentos da Santa Religião que professamos". A assinatura do comunicado era L.S.P., sigla que não identificava ninguém conhecido em Setúbal.
Apesar de todo o processo desencadeado pelos Regeneradores, com o apoio dos Progressistas, na pessoa de João Ferreira Braga, o candidato republicano conseguiu ainda 473 votos, contra 2129 do candidato monárquico, 281 dos quais em Setúbal, onde o candidato do Governo obteve 824 votos.
BRAGA, Joaquim Teófílo: Nasceu em Ponta Delgada, no dia 24 de Fevereiro de 1843 e faleceu em Lisboa, no dia 28 de Janeiro de 1924. Ao longo da sua vida foi escritor e político de grande relevo nacional, sobre quem muitos escreveram. Assim, após consultar algumas obras que referem as suas actividades, falaremos simplesmente num efémero episódio da sua vida política. Em 1894 foi proposto como candidato a deputado pelo círculo de Setúbal por um grupo de Republicanos Setubalenses, que assim pretendiam atrair o eleitorado que lhes era afecto, mas se sentisse tentado a apoiar António José Batista, como única hipótese de vencer os Regeneradores.
Setúbal era uma cidade muito importante para a causa republicana, pela elevada percentagem de apoiantes que nela possuía. Então, os proponentes do Dr. Teófilo Braga solicitaram aos que desejavam a República que esquecessem os dois candidatos monárquicos, que nada tinham a ver com os desejos do povo Setubalense. No manifesto eleitoral, apelaram aos Socialistas e a outros democratas, para que votassem no Dr. Joaquim Teófilo Braga. O documento terminava com uma chamada de atenção para o passado democrático da cidade e para a capacidade do candidato republicano: O Dr. Teófilo Braga, "presidente do congresso", era "um talento enorme, um sábio reconhecido por todo o mundo culto, carácter enérgico, de probidade inconcussa. Compará-lo com os dois antagonistas monárquicos deste círculo era quase um sacrilégio: equivaleria a enlamear uma estrela".
Todavia, os eleitores de Setúbal não estavam ainda preparados para perceber a necessidade de ter como deputado, por esta cidade, um homem com a capacidade do Dr. Teófilo Braga. O baixo nível cultural, numa cidade em que a percentagem de analfabetos ainda ultrapassava os 90%, continuava a ser o trunfo dos caciques conservadores, cuja única arma era a ameaça e a repressão. Todos estes factos, acrescidos da divisão dos Republicanos, face à necessidade de vencer o candidato governamental e o "administrador Maurício", provocaram uma autêntica catástrofe eleitoral, que Teófilo Braga não merecia, pois apenas conseguiu 84 votos, contra 1.885 de António José Batista, candidato progressista, e 2.447 de Joaquim Pedro de Assunção Rasteiro, candidato regenerador.
CAMPOS, Hermínia Borges de: Foi demitida do cargo de professora da escola primária oficial das freguesias de Santa Maria e S. Sebastião, por ter incitado as alunas a acompanhar o féretro da filha de Francisco José da Mota, quando este recusara funeral religioso. O préstito era dirigido pelo Republicano Pedro de Campos, seu marido, "empresário teatral e promotor de bailes carnavalescos", como afirma, acintosamente, o jornalista da Gazeta Setubalense. Seguiu-se acesa polémica, pois Francisco José Mota e Hermínia Borges de Campos não se calaram e responderam à Gazeta Setubalense, num jornal republicano da capital: o Partido do Povo.
A Gazeta Setubalense contra-atacou e ameaçou a professora com as seguintes palavras: "[…] A sra D. Hermínia é uma professora que muito apreciamos mas que está fora da sua missão, desde de que se afasta da religião do Estado que lhe conferiu a regência da cadeira pública". A culminar o processo, verificou-se a transferência da professora para Sintra, logo no início do ano lectivo de 1861/82, lugar onde as suas ideias revolucionárias não tinham eco. Como a religião católica era a religião do Estado, este punia os seus funcionários que a não seguiam fielmente, muito especialmente em Setúbal, onde Republicanos, Socialistas e Anarquistas tinham grande implantação.
CARVALHO, João Carlos de Almeida: Filho de António Coelho de Carvalho e de Ana Rita de Almeida e Silva de Carvalho, casados na Igreja de Santo António, em Setúbal, nasceu a 5 de Março de 1817, na rua da Praia (hoje avenida Luísa Todi), no 224, na freguesia de S. Sebastião, em Setúbal, onde foi baptizado.
Aos 4 anos de idade deu entrada numa escola para aprender a ler, mas a mestra tinha um aspecto físico repelente, era pedagogicamente incapaz e leccionava numa casa sem as mínimas condições de higiene. "A velha e carrancuda professora era pródiga em palmatoadas e generosa em caroladas. Para não perder um momento sequer, empunhava constantemente uma cana, que pairava ameaçadoramente como espada de Dâmocles sobre as cabeças das inocentes crianças que lhe frequentavam a escola. O menor gesto ou movimento, e o ponteiro, brandido por mestra seleira, descaía selvaticamente sobre o corpo dos discípulos".
Instigado por Frei Joaquim, seu primo, a seguir a carreira eclesiástica, recusou-a para ser militar, tal como seu pai e seu tio.
Com seis anos passou a frequentar a escola de Dionísio José Godinho, instalada na Casa das Varandas propriedade da família Salema.
Surgiu, então, no seu espírito, a esperança de usufruir de uma educação mais cuidada e menos violenta, o que se não verificou. O professor era "tenente reformado do exército, que poucas ou nenhumas regras gramaticais possuía, que ignorava mesmo o que fosse ortografia, e que mal se limitava a ensinar a ler, escrever e contar, e ainda assim de forma pouco regular ... cada aluno estudava pelo livro que queria". Na realidade o autodidactismo era a maneira mais usual de aprender no século XIX, facto que constatamos nos escritos coevos, muito especialmente n'As Farpas de Ramalho Ortigão e n'Os Gatos de Fialho de Almeida.
Mas este professor., além das fracas capacidades intelectuais, era também exímio "em brandir a férula de cinco olhos".
O primeiro livro utilizado intitulava-se Instrução de principiantes e novo método para se aprenderem as primeiras letras, publicado em 1751, e continha uma breve descrição de Portugal e seus monarcas, desde o conde D. Henrique a D. José. O livro seguinte intitulava-se O Tesouro dos Meninos.
O método utilizado era altamente competitivo e chamava-se "ir à aposta" (enquanto um lia ou falava, o outro estava sempre atento para detectar qualquer erro). No que se referia à escrita, os alunos elaboravam os seus textos e percorriam a vila perguntando às pessoas qual era o melhor, classificando-os. O aluno que conseguisse a melhor votação "tinha por prémio o dever ou a obrigação de dar meia dúzia de palmatoadas nos menos classificados". Esta punição era também aplicada pelo primeiro a chegar à aula, aos que entrassem atrasados mais de 15 minutos.
Almeida Carvalho considerava estes costumes alienatórios, uma vez que, ..por anacrónicos" e fruto de uma ., educação tão defeituosa, nunca permitiriam despertar verdadeiros sentimentos de fraternidade entre as crianças".
O avô era Escrivão da Mesa Real da Tábula de Setúbal e usava sempre o traje clássico português: "casaca de pano preto, azul ferrete ou de saragoça, calça justa do mesmo pano, colete de diversas cores, botas altas chamadas de rugas, que lhe chegavam aos joelhos, com borlas de cordão de seda preta na frente, e chapéu armado de feltro. De Inverno, sobre aquele clássico traje português, lançava o seu longo e rodado capote de baetão de cor castanha".
Aos treze anos, Almeida Carvalho ia com o pai e o avó à carga e possuía apenas a "incipiente instrução primária que era a que geralmente se recebia nas terras da província, aceitando as lições de um mestre escola ignorante".
Aos 14 anos conseguiu autorização para frequentar a aula de latim do Prof. Félix Vidal Gralha mas, pouco tempo decorrido, o pai considerou tais aulas inúteis, porque queria que ele lhe sucedesse no cargo de Escrivão da Correição da Comarca de Setúbal.
Perante a imposição paterna, começou a trabalhar como escrevente, para, com o produto do seu trabalho, se vestir e se calçar. Embora a lei exigisse os 25 anos como idade mínima para ser nomeado como Ajudante do Escrivão, e ele apenas tivesse 15 anos, o pai conseguiu ultrapassar a lei e fez dele seu ajudante oficial, no dia 12 de Fevereiro de 1833.
O pai era realista; lutou contra os Liberais, no Sul do Tejo, fazendo-se acompanhar pelo filho.
Na derrota de Setúbal, que levou o pai de Almeida Carvalho à fuga, encontramos, talvez, a génese do processo conducente à Convenção de Évora Monte e consequente triunfo das ideias liberais. Então, os seus familiares perderam os empregos e "caíram na pobreza".
Após ter participado nas empresas bélicas da região de Alcácer do Sal, onde tropas realistas ainda permaneciam acompanhadas por um contingente estrangeiro ("Franceses, Belgas e Ingleses, fugidos do exército liberal"), que praticavam profanações horríveis, tornou-se liberal, embora, segundo os princípios em que fora educado, o filho devesse seguir as ideias de seu pai.
Em 1836 foi residir com os pais em Lisboa, tentando, novamente, estudar na Escola Naval, como sempre fora seu desejo, mas o pai não lho permitiu. Frequentou, então, a aula de Francês, "instalada no edifício do extinto Colégio dos Nobres, dirigida pelo professor Pedro Augusto Adolfo Mauperrin, e as lições particulares de Lógica, ensinadas por José Joaquim de Pina", homem de "ideias republicanas". Entusiasmado, fez-se republicano convicto, mesmo contra a vontade de seu pai.
Exerceu as funções de oficial taquigráfico da Câmara dos Pares, desde 5 de Setembro de 1838, até que se aposentou. Começou por ganhar 120 mil réis por ano, como praticante. Em 1841 passou a ganhar 200 mil réis e em 1846, 300 mil réis, ao ser promovido a praticante de primeira. Após ter apresentado reclamação, face à diferença que existia entre ele e o colega, foi promovido a segundo taquígrafo com o vencimento de 480 mil réis. Em 1855, em sessão de 13 de Julho, a Câmara dos Pares nomeou-o 20 oficial taquígrafo, com o vencimento de 600 mil réis. No dia 26 de Maio de 1859 viu-se promovido a 10 oficial taquígrafo, com o ordenado de 700 mil réis. Em 1863 foi nomeado chefe de secção, com a gratificação de 90 mil réis, e lente substituto, com a gratificação de 100 mil réis.
Em 1840 reiniciara os estudos na área do latim, com Manuel Pratas, amigo particular de Silvestre Pinheiro Ferreira. Posteriormente estudou francês, italiano e inglês e conseguiu o consentimento paterno para ir estudar na universidade de Coimbra. Não chegou, porém, a partir, pois o pai desistiu da ideia.
Casou no dia 20 de Junho de 1844 com a prima, Mariana Inácia Pinto de Carvalho, de quem teve três filhas e quatro filhos.
Em 1845 regressou a Setúbal, ligado ao "partido constitucional, então o mais avançado", segundo o seu entender.
O seu modo de ser e de agir granjeou-lhe amigos e inimigos, pois não se coibia de atacar os seus adversários políticos e de pugnar pela vitória dos seus correligionários.
Quando as forças populares às ordens da Junta do Porto, organizadas no Alentejo e Algarve, entraram no dia g de Abril de 1847 em Setúbal, onde se estabeleceram, Almeida Carvalho, esteve do seu lado. Deu-se, então, o sangrento combate do Viso, no dia 1 de Maio. Almeida Carvalho não se encontrava na sua terra natal porque fora perseguido e preso no dia 23 de Março de 1847.
Em Setúbal, manteve contactos com o vigário-geral Manuel da Gama Xaro, "talvez o primeiro antiquário do seu tempo", e juntos conceberam o projecto de, após dinamizarão de escavações em Tróia, fundar um museu em Setúbal e convidar, para presidente da sociedade que desses trabalhos se incumbiria, o duque de Palmela, que já mostrara interesse em visitar o local onde se encontram as ruínas romanas.
Assim, constituíram a comissão dinamizadora e formaram a primeira "sociedade científica do país", inaugurada no dia 8 de Novembro de 1849. O Rei aceitou o título de protector da Sociedade Científica e o Duque de Palmela a de presidente vitalício. O nome da nova instituição era Sociedade Arqueológica Lusitana. Mas, após a morte do Duque de Palmela, apesar das insistentes ofertas de protecção feitas por D. Fernando, a Sociedade acabou e as "antiqualhas" recolhidas foram entregues no depósito da Academia das Belas Artes de Lisboa, como determinara "a portaria do Ministério do Reino, datada de 29 de Janeiro de 1869".
Em 1851 Almeida Carvalho foi eleito secretário da comissão de lavradores de marinhas, donos de barcos e outros interessados, incumbida de elaborar o projecto do novo regulamento e de fazer parte da Junta da Repartição do Sal, que, por decreto de 5 de Agosto de 1852, viria a ser extinta.
Nos anos de 1851-1852, foi eleito membro da Comissão do Recenseamento Eleitoral.
Estudou Jurisprudência, obtendo o certificado de advogado, sem ser bacharel em direito, e exerceu advocacia no foro de Setúbal.
Foi redactor-principal de O Setubalense, primeiro semanário publicado em Setúbal no dia l de Julho de 1855, porta-voz do Partido Regenerador, em que Almeida Carvalho então militava. Com o número 131, saído no dia 27 de Dezembro de 1857, findou a sua publicação. Este periódico era impresso na tipografia da empresa do Setubalense.
Neste mesmo ano de 1855, Almeida Carvalho voltou "ao ataque" na imprensa local contra os homens que, então, administravam a Câmara Municipal. Na autobiografia comenta: "0 que sempre deveria ser considerado como símbolo das franquias populares e das regalias municipais, passou a ser tomado por alguns como centro de operações que protegesse apaniguados e satisfizesse ambições menos honestas.
Precisamente contra esses planos tenebrosos, tendentes a sufocar e extinguir entre o povo todos os sentimentos de independência e dignidade, e já em plena anarquia e decadência municipal, ergue-se um grupo de homens que, na imprensa, aparecido pela primeira vez nesta terra, em 1855, protesta energicamente, prevenindo os incautos e esclarecendo os iludidos. Infelizmente, a gangrena já lavrava muito fundo, e os espíritos eivados de corrupção ou de pusilanimidade, cegamente seguiam aqueles que lhes acenavam com o interesse individual, sobrepondo-o ao interesse da colectividade.
Como, porém, o meu jornal, auxiliado por grande número de homens, desses de antes quebrar que torcer, e apoiado geralmente pelo povo, se insurgisse contra a tacanha e nefasta oligarquia, era preciso - bradava ela - atirar à cabeça, revolucionária e orgulhosa, que ousava opor-se ao sistema inaugurado da corrupção e anarquia".
No dia 31 de Agosto de 1855 foi, por motivos políticos, vítima de um ataque com punhal, na Rua da Praia.
Em 1856 foi presidente da Associação Setubalense das Classes Laboriosas de Setúbal.
No ano de 1860 foi eleito Procurador à Junta Geral do Distrito, como representante dos concelhos de Setúbal e Alcochete, sendo a primeira vez que um Setubalense ocupava tal cargo. Só conseguiu um mandato porque, segundo afirma, advogara "os interesses da pobre classe pescadora, com quem eles queriam continuar a especular".
Quando, em 1861, Progressistas e Regeneradores, se digladiam em Setúbal, já cidade, Almeida Carvalho apostou na oposição, pois os Progressistas estavam no poder.
Então, vencido Fontes Pereira de Melo, Almeida Carvalho, ao referir o vencedor Aníbal Alvares da Silva, esquece-se de mencionar a influência que este tivera no processo que culminou com a elevação de Setúbal à categoria de cidade. No entanto, lamenta o facto de, durante o acto eleitoral, ter sido agredido pela "multidão enfurecido", insinuando a conivência dos Progressistas.
Após ter lido o livro de Jacinto Augusto de Freitas Oliveira, intitulado José Estêvão - Esboço Histórico, publicou o opúsculo intitulado Duas palavras ao autor do Esboço Histórico de José Estêvão ou Refutação da parte respectiva aos acontecimentos de Setúbal em 1846-1847 e a outros que com eles tiveram relação, porque encontrara incorrecções nas referências feitas a Setúbal e a outros factos com ela relacionados.
Pelo acto pronto e decidido recebeu felicitações de homens citados na referida obra, como o Conde de Melo e o Marquês Sã da Bandeira.
Em 16 de Dezembro de 1864, recebeu um ofício do presidente da Associação dos Arquitectos Civis Portugueses a convidá-lo para uma reunião, como sócio fundador da Sociedade Arqueológica Lusitana, visando a continuação das escavações em Tróia. Esteve presente com o Dr. Garcia Peres, mas recusou participar no projecto porque o achava inexequível.
Em meados de 1868, acedeu ao pedido, feito pelo Marquês de Sousa Holstein, "para ser um dos fundadores, na capital, e junto à Academia das Belas Artes, de uma sociedade científica com a denominação de Real Instituto Arqueológico de Portugal". Foi eleito Tesoureiro, mas o Instituto teve vida efémera.
Decidiu então abandonar a militância política, por considerar que ela só lhe proporcionara aborrecimentos.
Em 1864 faleceu seu pai, que apenas lhe deixou aquilo a que a lei o obrigava.
Quando, em 1872, Portugal pensou concorrer à Exposição Universal de Viena de Áustria, o Presidente da Comissão Central, estabelecido em Lisboa, convidou-o, "pelo seu reconhecido prestígio e patriotismo", a integrar o grupo preparatório da mesma, tendo ele pedido escusa por se encontrar longe de Lisboa, a sua saúde ser precária, estar muito ocupado com os estudos históricos e ainda por se não sentir com capacidade para tão pesadas tarefas.
Quando, em 1875, a Câmara de Setúbal, sob a presidência do Dr. Rodrigues Manitto, deu início aos trabalhos conducentes à organização de uma biblioteca pública e incumbiu Alberto Pimentel de elaborar a Memória sobre a História e Administração do Município de Setúbal, Almeida Carvalho queixa-se de que os seus estudos foram totalmente ignorados.
Então, acusa a Câmara de corrupção: a uns pareceu insólito e e menos regular este procedimento e uma afronta disfarçada a quem se desejasse ferir, a outros que a Câmara receara que alguém se oferecesse para escrever gratuitamente os tais Anais ou Memórias, contrariando assim o plano comercial de antemão preparado".
No ano de 1877, quando se preparavam as eleições para a Câmara, Almeida Carvalho recebeu as listas dos grupos que se opunham ao Dr. Rodrigues Manitto. No seu espólio encontra-se uma lista manuscrita, que parece uma tentativa de conciliação entre as três que tentaram derrubar o presidente da edilidade. Era uma lista de consenso entre os Regeneradores e os Progressistas descontentes com a administração camarária: Dr. Domingos Garcia Peres, António Maria de Campos Rodrigues, José Guilherme de Araújo, José Luciano de Carvalho, Manuel Joaquim Guerreiro, Venâncio Olímpio Ferreira Torres Joaquim Pedro de Assunção Rasteiro.
Esta lista, composta por Independentes, Progressistas e Regeneradores, nunca apareceu a público, acabando o Dr. Rodrigues Manitto por ganhar, de novo, as eleições.
No ano de 1879, quando a oposição regeneradora, com o Conselheiro Arrobas como candidato, venceu em Setúbal, Almeida Carvalho congratulou-se com os resultados da votação e disse que a derrota dos Progressistas em Setúbal revelava a debilidade do Governo, inapto para conduzir os destinos de Portugal. Conclui que "eram finalmente as recordações de um longo passado que se não haviam apagado no coração do povo". O mesmo povo que Almeida Carvalho apelidava de ignorante e impreparado politicamente, quando votava nos Progressistas ou nos Republicanos, ou quando aplaudia medidas contra os seus correligionários.
É interessante verificar que, afinal, os que mais pugnavam pelos seus interesses, tocando mesmo a corrupção, eram aqueles que Almeida Carvalho defendia, como por exemplo António Joaquim Corrêa, homem que de tudo se servia para conseguir os seus intentos.
Almeida Carvalho considerava urgente a abertura de caminhos-de-ferro e de estradas, o desenvolvimento da agricultura, da indústria e do comércio, mas sem aumento de impostos. Prementes, também, eram os melhoramentos no porto, para que o Sado voltasse a ter a grandeza e importância de outros tempos. Apelava, ainda, para a construção de "casas de refúgio para os velhos" e de amparo à "infância desvalida, marcos de um passado e futuro honesto de liberdade e civilização". Aproveitou para fazer uma crítica severa ao Governo, que permitia o descalabro dos dinheiros públicos, não dinamizando uma fiscalização aturada dos serviços de impostos.
Também em 1880, quando foi resolvido que o Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Histórica tivesse lugar em Lisboa, foi convidado pelo presidente da Comissão Organizadora do Congresso, João de Andrade Corvo, a colaborar na sua organização.
Então, por ter já passado os 65 anos, pediu escusa dos seguintes cargos: vogal da comissão referente ao imposto de rendimento; cargo de jurado; vogal da Junta Fiscal da Comarca de Setúbal; vereador efectivo da Câmara Municipal.
Em 1882, requereu a aposentação, que lhe foi concedida.
Manuel Maria Portela dedicou-lhe o seguinte soneto, no dia 25 de Março de 1882:
"Em contínuo labor e árdua porfia,
por entre a escuridão da antiguidade,
buscas na história o cunho da verdade,
depurando-a do que é só fantasia.
Na empresa a que te dás em nossa idade,
em que o plagiato vemos cada dia,
o justo empenho que te esforça e guia,
com razão nos parece raridade!
Sais da regra dos vãos historiadores,
encartados copistas de alfarrábios,
que domam aos lucros e aos venais louvores.
Loas lhes tecem de imbecis os lábios,
a quem sempre rejeitas os favores,
certo do prémio que é devido aos sábios."
Ao longo do ano de 1883, Almeida Carvalho intensificou a sua actividade política, sem perder uma só oportunidade de comentar os acontecimentos, sempre sob a óptica regeneradora.
Almeida Carvalho, ao recordar um episódio que muito o magoou, escreve nas suas Memórias: "Com o fim de se tratar de eleição dos indivíduos que haviam de estar na vereação no 10 de Janeiro de 1884, reuniram em Setúbal alguns cavalheiros, e entre eles o administrador do concelho Francisco de Sá Nogueira, Henrique Ahrens, José de Groot Pombo, Joaquim da Costa Novais e Francisco Maria Cabral de Aquino. A primeira reunião foi no dia 3 de Setembro de 1883. Eram propostos João Carlos de Almeida Carvalho, Joaquim da Costa Novais e outros. Mas como o primeiro declarasse terminantemente não aceitar o cargo, se fosse eleito e a intriga logo começasse da parte dos ambiciosos, foram estes e os seus adeptos que afinal tiveram o sufrágio do povo ignorante sempre iludido e escarnecido".
A mulher de Almeida Carvalho faleceu no dia 12 de Maio de 1884.
Em 1885, nas eleições para a Câmara, Almeida Carvalho, que obtivera 994 votos nos 1.043 possíveis, não aceitou o lugar por se considerar votado ao ostracismo na sua própria terra, e foi obrigado a pagar a multa de escusa.
Aliás, em Outubro de 1885, Almeida Carvalho declarava, no Revolução de Setembro do dia 18, considerar pouco correcto o aparecimento de listas saídas de reuniões secretas, "feitas por agentes apaniguados, espécie dos antigos mamposteiros, que gozavam de grandes privilégios, pediam muito e por toda a parte, e parece que não perdiam os passos no peditório nem deixavam de auferir bons lucros". E pergunta: "Pois o povo há-de continuar a permanecer iludido e cego? […] se assim é, tal povo não é digno que tais homens por ele se sacrifiquem". Continuando a sua "lição de moral", de acordo com as ideias boas, ou seja as suas, afirma que nas assembleias populares, "onde se mantenha a serenidade, a ordem e a dignidade, os cidadãos esclarecem-se, descobrem os embustes dos que os tem iludido" e pretendem continuar a fazê-lo, e então acabarão por afastar "os vendilhões eleitores".
Lamenta a degradação da Câmara e diz ser impossível, para Setúbal, "uma nova era de ressurreição municipal e de perseverante e honrosa virilidade".
Almeida Carvalho considerava infrutíferos os esforços dos que, julgando-o morto politicamente, tentaram reanimá-lo, dando-lhe o cargo de vereador, para depois o atacarem.
Referia as qualidades intelectuais, técnicas e morais que deviam ser apanágio dos eleitos e lamentava que, nos últimos tempos, elas tivessem sido esquecidas, facto que provocara o descalabro no Município. Mas, se tal aconteceu, a culpa foi de quem mal votou. Segundo Almeida Carvalho, o erro residiu na introdução do sufrágio universal: "[…] Este sufrágio ou exprime a vontade de meia dúzia de influentes, que pela intriga mais ou menos bem trabalhada, seduzindo as massas populares impensantes, conseguem suplantar a parte mais importante e útil da nação, que é a ilustrada, a pensante e a acomodada; ao contrário se essas massas populares ficam à larga, mas sempre mais ou menos guiadas por um outro ambicioso intrigante, aí temos então, como consequência fatal, as classes menos esclarecidos ou antes as massas brutas a destruir a sociedade por meio da anarquia, porque a civilização não pode nunca sair da ignorância". Todavia, falando-se tanto em instrução esquece-se a "educação moral e religiosa", sem a qual o povo não passa de "uma horda de selvagens". Depois de ter assinado a sua desistência, Almeida Carvalho escreveu a agradecer a "todos os briosos eleitores da histórica e venerando vila de Palmela, onde obteve mais votos, à maioria dos eleitores da formosa vila de Azeitão e aos poucos" (372 em 435 votos entrados nas urnas) eleitores de Setúbal que nele votaram. Referia os que envolveram o seu nome em manobras pouco claras, louvava o procedimento dos que se abstiveram por lhes repugnar actos pouco correctos e lamentava que muitos falassem mas pouco fizessem pela "coisa pública".
E interessante a incoerência deste homem, tão arraigado a princípios que começavam a ser postos em causa, mas que caía facilmente em gritantes contradições. Recusou o cargo de vereador, e talvez presidente, da Câmara, por ter recebido poucos votos. Face aos números apresentados, teria que considerar as abstenções negativamente, no entanto, louva os abstencionistas pela sua coerência! Bem, se não estavam contentes com as atitudes menos correctas da oposição, só tinham uma solução, votar na lista de Almeida Carvalho! Mas não o fazem! Pura e simplesmente abstêm-se, e ele louva tal atitude! Mas continuava afirmando que, se pudesse exercer o cargo apenas como vereador por Palmela e Azeitão, aceitá-lo-ia de bom grado, "por gratidão e carinho" para com os seus habitantes. A sua recusa devia-se ao facto de, na cidade de Setúbal, apenas 1/5 dos eleitores terem votado. Na sua própria freguesia, S. Sebastião, a Assembleia não chegou a constituir-se, e no resto da cidade apenas lhe esmolaram 372 votos. Continua com uma vasta dissertação sobre os acontecimentos, na qual afirma ser coisa fácil corromper o povo, que se deixa arrastar "acreditando em falsas aparências". Mas esclarece que, quando se refere ao povo, fala, como Alexandre Herculano, de "populaça que não reflexiona, que não tem interesses materiais ou morais ligados à forma do Governo, ou às garantias das instituições políticas". Continua a crítica afirmando que as estruturas só se mudam quando há homens fortes, de ideias firmes que pugnem pelo bem das populações frontalmente e "às claras". Pena era que, em seu lugar, bandos de vaidosos enxameassem as praças corroendo as estruturas existentes: "Flagelo de todas as localidades onde quer que essa praga aparece! E Setúbal tem sido vítima destes arautos de ideias novas".
Quando, em 1891, D. Carlos desistiu, em favor de Cascais, de estabelecer em Setúbal a sua residência de férias, Almeida Carvalho considerou que a decisão real fora "um desastre e até um erro político". E conclui: "Assim, pouco a pouco iremos morrendo em nós mesmos esperando o natal de uns novos Messias que nos dê a urna eleitoral".
Em 1892, Almeida Carvalho recorda os benefícios prestados pelos hospitais ligados à Misericórdia e aproveita para louvar as entidades que tinham supervisionado aquela confraria (Almeida Carvalho nunca foi Irmão da Santa Casa).
Em 1893, ano em que os Socialistas residentes em Setúbal decidiram festejar o 10 de Maio, dando-lhe um cunho de movimentação operária, Almeida Carvalho limitou-se a dizer que as celebrações, onde os trabalhadores tiveram lugar de relevo, decorreram com .. ordem e sensatez". Recordava ainda a religiosidade do dia de S. Filipe, que não foi esquecida pelos Setubalenses.
Incapaz de admitir qualquer espécie de mudança de âmbito sócio-económico, os seus comentários mantêm sempre uma crítica mordaz e insinuações preconceituosas, ao referir as lutas operárias, assim como a presença das mulheres no processo revolucionário.
No ano de 1893, quando os soldadores apelaram para que as autoridades os ajudassem a resolver o problema de falta de trabalho, Almeida Carvalho colocou-se ao lado dos que responderam com a esmola e insurgiu-se contra os trabalhadores que a recusaram em nome da Justiça Social. Caridade e Solidariedade defrontam-se assim em campo aberto, com todas as consequências que daí advêm.
Quando, em 1894, se realizou em Setúbal o Comício de Coligação Liberal, Almeida Carvalho afirma que ele teve .. assistência diminuta, não ultrapassando as 1.000 pessoas, pois o povo mostrou-se indiferente", e que os trabalhos se desenrolaram em "completo sossego e ordem". No entanto, no exterior, várias forças militares cercavam o edifício, facto que Almeida Carvalho considerava bastante positivo.
Em 1895 os Republicanos e os Socialistas tinham já grande adesão na cidade de Setúbal; Almeida Carvalho, sentindo a impossibilidade de o seu partido voltar a conseguir apoio maioritário na cidade, não resiste à tentação de denegrir as intenções dos que defendiam a mudança de regime em Portugal, e acusa-os de utilizarem métodos pouco democráticos.
Então Almeida Carvalho estava já bastante velho e doente. Faleceu no dia 30 de Março de 1897 e foi sepultado no jazigo nº 27 do quadro nº 4 do Cemitério de Nossa Senhora da Piedade, da cidade de Setúbal.
A ele se deve a importante compilação de documentos sobre Setúbal, eujos originais se encontravam na Biblioteca Municipal destruída pelo fogo, na noite de 4 para 5 de Outubro de 1910. O seu espólio, inédito na quase totalidade, encontra-se no Arquivo Distrital de Setúbal, sob o título de Fundo Almeida Carvalho.
CASTILHO, José Feliciano de: Em Setúbal, Manuel Maria Portela, despoletara um processo conducente à edificação de uma estátua do grande poeta Setubalense Bocage que, com os seus versos e contactos com personalidades políticas, nacionais e estrangeiras, foi o grande dinamizador dos ideais liberais na cidade.
Para sensibilizar os Setubalenses, António Maria Portela publicou no dia 23 de Abril de 1865, na 1ª página de A Voz do Progresso, um artigo intitulado "Monumento a Bocage", no qual falava do poeta e da obrigação que os habitantes de Setúbal tinham de lhe erigir uma estátua. No dia 15 de Outubro, no mesmo periódico, abriu-se um subscrição pública, à semelhança do que José Feliciano de Castilho fizera no Brasil, onde se encontrava em missão diplomática.
Foi, pois, aquele português residente em terras brasileiras que, com seu irmão António, dinamizou o processo que culminou com a implantação da estátua a Bocage, na cidade de Setúbal.
No dia 5 de Novembro de 1865, A Voz do Progresso continuava o apelo aos Setubalenses para que contribuíssem com o seu óbolo para o monumento a Bocage e informavam que a Comissão constituída no Rio de Janeiro, para obter os fundos necessários à feitura do monumento, e presidida por José Feliciano de Castilho, deliberara que a inauguração se fizesse no dia 15 de Setembro de 1866. No dia 25 de Fevereiro de 1866, o referido periódico publicou uma notícia, na qual se pode ler: "António Feliciano de Castilho informa que seu irmão José Feliciano de Castilho Barreto e Noronha vem em Abril a Portugal e espera trazer os recursos necessários ao início da construção do monumento a Bocage, em Setúbal".
No dia g de Setembro do mesmo ano, ainda sob o título Monumento a Bocage, o mesmo periódico publicava a seguinte notícia, envolvendo uma crítica mordaz ao povo de Setúbal: "No próximo paquete esperam o poeta José Feliciano de Castilho que vem com a intenção de erigir o monumento a Bocage, acto que os Setubalenses não foram capazes de realizar".
No dia 11 de Novembro do mesmo ano, o periódico em causa publicava ainda: "0 Conselheiro José Feliciano de Castilho trouxe do Rio de Janeiro 12 contos de réis para o monumento.
Pensa-se construí-lo no largo sobre a ponte de S. Sebastião, que será alargado e preparado de modo conveniente.
Parece bem por ser sobre a cidade e perto da casa onde nasceu o poeta".
Mas a inauguração da estátua só teve lugar no dia 21 de Dezembro de 1871 (data em que se completavam 60 anos após a morte de Manuel Maria Barbosa du Bocage), na praça do Sapal que, desde então, se passou a denominar de Bocage. O empreendimento deveu-se, pois, ao esforço dos irmãos Castilho, defensores do culto da personalidade e da memória dos antepassados ilustres.
Não adiantamos mais notas biográficas de José Feliciano de Castilho e de António Feliciano de Castilho, por se tratar de figuras nacionais, estudadas e alvo de inúmeras referências bibliográficas.
CASTRO, Joaquim Teixeira de Macedo e: Foi um dos quatro sócios de Vicente José Lopes de Azevedo Júnior, único distribuidor de água autorizado na cidade de Setúbal, no ano de 1878. Era então presidente da Câmara Municipal o Dr. Rodrigues Manitto. Esta Sociedade foi criada para explorar o fornecimento de água destinada ao consumo público, e nela se aplicou o capital de 20.000 000 réis.
CHAGAS, João Pinheiro: Político e jornalista, nasceu no Rio de Janeiro, no dia 1 de Setembro de 1863, e faleceu em Lisboa no dia 28 de Maio de 1925.
Redactor de vários periódicos, foi director de O País, no ano de 1898. As suas ideias políticas, expressas nos artigos que escrevia, conduziam-no a um ataque cerrado às instituições e à política monárquicas. Foi várias vezes processado e algumas vezes preso. Condenado por cumplicidade na revolta de 31 de Janeiro de 1891 e desterrado, beneficiou de amnistia em 1893.
Entretanto, ainda exilado na Holanda, foi proposto pelos Republicanos Setubalenses como candidato a deputado pelo círculo de Setúbal.
No manifesto eleitoral, os seus proponentes apresentam-no ao eleitorado como símbolo da República, "no que ela tem de mais altiva, generosa e franca, leal, por ventura temerária, meiga e pura - como a própria mocidade."
A comprovar a necessidade de mostrar aos Monárquicos a sensibilidade republicana dos Setubalenses, Eduardo Maia, que assina o documento, lembrava aos eleitores que desejavam a República, que só o voto em João Chagas o conseguiria plenamente. Ele, "infeliz expatriado", que fora "vítima da mais repugnante perseguição das autoridades monárquicas", era a prova cabal da necessidade imperiosa de implantação do regime republicano.
Terminado o acto eleitoral, verificaram-se os seguintes resultados: Jaime Pinto 2.487 votos; António José Batista 2.239; João Chagas 78; Pinto Coelho 21; Cândido Figueiredo 3; Simões Raposo 1 e Alfredo Alves 1. O resultado, embora ditado pelo "voto útil", foi gratificante para os Republicanos da cidade, onde a votação em Pinheiro Chagas foi mais significativa.
COELHO, António Ribeiro: António Ribeiro Coelho era militante regenerador e redactor do Correio do Sado.
No início de 1881, Campos Rodrigues, director do Liceu, recusou a sua admissão como professor daquela instituição. Esta atitude de um progressista contra um regenerador, foi sectária e gerou forte polémica entre os jornalistas locais e até nacionais. Como ambos podiam expressar livremente os seus pensamentos, os insultos sucederam-se, alternadamente, nos periódicos Gazeta Setubalense e Correio do Sado. A guerra jornalística, e obviamente política e pessoal, atingiu tais proporções que terminou com o afastamento de Campos Rodrigues da redacção da Gazeta Setubalense e o final de publicação do Correio do Sado.
COELHO, José Maria Latino - Nasceu em Lisboa, no dia 29 de Novembro de 1825, e faleceu em Sintra, no dia 29 de Agosto de 1891. Quando, em 1889, aceitou candidatar-se a deputado pelo círculo de Setúbal, proposto pelo grupo conotado com os ideais republicanos, era já bastante vasto o seu curriculum militar, político e literário. Fora já ministro e deputado por Lisboa e pelos Açores.
Militante do Partido Regenerador, aderiu às ideias democráticas, escrevendo os seus primeiros artigos no Revolução de Setembro.
No dia 20 de Outubro de 1889, apresentaram-se a sufrágio dois candidatos: António Alves Pereira da Fonseca, já eleito na legislatura anterior, que obteve 2479 votos, e José Maria Latino Coelho, pela oposição, que conquistou 352 votos. No seu manifesto, os apoiantes do Dr. Latino Coelho declaravam que, perante a desistência do candidato republicano, decidiram apresentar alguém cujo valor fosse indiscutível, e por demais reconhecido, para se opor ao candidato governamental, de actuação absolutamente ineficaz.
Latino Coelho foi derrotado, mas a votação que obteve foi extremamente gratificante para o grupo revolucionário, já bastante radicado na cidade de Setúbal.
CORRÊA: A família Corrêa esteve durante longos anos representada nos órgãos de decisão das instituições que superintendiam os destinos da cidade de Setúbal.
Assim, torna-se difícil desinserir cada um dos seus membros de um contexto global, que era afinal o complexo processo de interesses do grupo Corrêa. Mesmo no que se refere à política, verificamos que em cada partido estava sempre um Corrêa.
Deste modo, quando os partidos regenerador e progressista alternavam a governarão, não apenas a nível nacional, mas também nas várias instituições locais, os Corrêa jamais abandonaram o poder pois, enquanto Joaquim José Corrêa estava ligado aos Regeneradores, José Manuel Corrêa aparecia sempre nas listas organizadas pelos Progressistas, isto para não falar de outros elementos do clã.
Por seu turno, António Joaquim Corrêa, filho do primeiro, manteve-se independente, ao longo destes conturbados quarenta anos, embora ligado aos Regeneradores, domo seu pai.
Assim, em 1873 realizaram-se as eleições para a vereação do Município. Apareceu uma lista encabeçada pelo Progressista António Maria Campos Rodrigues, director da Gazeta Setubalense, em oposição à lista proposta pelo Dr. António Rodrigues Manitto, então também progressista, na qual figuravam Manuel Ventura Corrêa e José Joaquim Corrêa. A lista foi vencida, e Rodrigues Manitto continuou na presidência da edilidade.
No dia 4 de Agosto de 1878 efectuaram-se novas eleições para a Câmara de Setúbal, e Francisco Augusto Machado Corrêa foi eleito vereador na lista do Dr. António Rodrigues Manitto. Foi a partir desta data que se iniciou em Setúbal a chamada "guerra da água", de que os irmãos Corrêa (Joaquim José e José Manuel) foram os principais responsáveis.
Em todo este processo, os Corrêas apareceram ligados e, quando separados, sempre em consonância nas decisões referentes aos seus interesses particulares.
No entanto, como cada homem é um mundo, vamos tentar localizar cada um deles em todo o processo envolvente.
CORRÊA, António Joaquim: Era filho de Joaquim José Corrêa e de Luísa Bernarda Corrêa, negociante de vinhos e morador na rua dos Caldeireiros, na freguesia de S. Julião. Foi Escrivão da Misericórdia no ano de 1861/62.
Ocupou o cargo de Provedor nos anos de 1865/66; 1874/75 (24); 1875/76; 1879/80; 1880/81; 1888 a 1894; 1896/97.
Em 1871, António Joaquim Corrêa vendeu sal por preço inferior ao do mercado, defraudando a Misericórdia em 400 000 réis, facto de que foi acusado por Campos Rodrigues. António José Corrêa exigiu que o seu acusador se retractasse, mas a reacção deste foi contrária aos seus desejos, pois continha ameaças de mais revelações pouco abonatórias, procedimento que desencadeou o ataque dos Corrêa ao director do Liceu.
Em 1886, fez parte da Assembleia Eleitoral de S. Julião.
Quando, em 1888, voltou a ser eleito Provedor, António Joaquim Corrêa, afastado do cargo desde 1881, reuniu a Mesa e Conselheiros, em sessão especial, no dia 7 de Abril. A reunião teve como finalidade decidir sobre a oficializarão da participação ao Governador Civil das ofensas praticadas pelo Chefe da Polícia e pelo Administrador Substituto do Concelho, Luís Francisco de Melo, à Santa Casa, que António Joaquim Corrêa reputava de escandalosas. A decisão foi aprovada, desconhecendo-se a sequência dos acontecimentos.
Em 24 de Fevereiro de 1891, António Joaquim Corrêa, na qualidade de Provedor da Santa Casa da Misericórdia, enviou ao Rei D. Carlos felicitações pelo malogro da revolta do Porto. O monarca agradeceu as "expressões de lealdade e respeito que a Mesa lhe havia dirigido", na pessoa do seu Provedor.
Em 7 de Julho de 1892, setenta e três Irmãos da Misericórdia dirigiram à Mesa um abaixo assinado, louvando os esforços feitos pelo Provedor e Mesários daquela Santa Casa, para que o edifício do extinto convento de Jesus fosse entregue a esta instituição, para nele se instalar o novo hospital.
Com o avanço das obras, as despesas aumentaram; então, António Joaquim Corrêa propôs que fosse feito um empréstimo de 1.500 000 réis, subscrito por cinco Irmãos, em cujo grupo ele se integrava. Prontificou-se ainda a emprestar em nome de sua mulher, D. Ana Carolina Alves Corrêa, nas condições já citadas, 1.000 000 réis, além dos 200 000 réis que emprestou em seu próprio nome.
No dia 15 de Novembro de 1892, esteve presente na cerimónia da mudança do Cruzeiro para o centro do novo Largo de Jesus. Então "colocou nos fundamentos do mesmo Cruzeiro, três moedas de cobre de vinte réis, três ditas de dez réis e três de cinco réis […]".
No dia 19 de Março de 1893 custeou as despesas referentes à transferência do Hospital do Espírito Santo para o Convento de Jesus. Neste mesmo ano autorizou verbalmente o funcionamento da Associação Casa Nova, que funcionava como um montepio clandestino na farmácia da Misericórdia.
Em Julho de 1894 foi eleito Provedor José António Januário da Silva, seu opositor político, que denunciou irregularidades da anterior administração. Então, António Joaquim Corrêa pediu o relatório que havia feito para ser publicado, declarando que queria rectificar algumas contas de dívidas passivas apresentadas, porque o empregado se enganara. O Escrivão registou em acta que o orçamento fora 1. emprestado ao dito Corrêa […]".
A Regente do Hospital, mulher da confiança de António Joaquim Corrêa, foi exonerada. Mas, no dia 22 de Julho de 1896, aquele foi de novo eleito Provedor e reintegrou-a com exercícios efectivos e com todos os poderes.
No dia 10 de Novembro deste ano, faleceu o Provedor António Joaquim Corrêa, que foi substituído, logo no dia seguinte, pelo anterior Provedor, José António Januário da Silva, tal como ordenava o Compromisso.
António Joaquim Corrêa foi sepultado no cemitério da Misericórdia, de acordo com o disposto no seu testamento.
No dia 11 de Outubro de 1903 a Mesa da Santa Casa da Misericórdia aprovou a proposta de colocação do retrato da benfeitora falecida, Ana Carolina Abreu Corrêa, sua esposa, assim como o de seu pai, que legara à Misericórdia a quantia de 300.000 réis.
No dia 6 de Setembro de 1904, encontravam-se já colocados os três retratos. Era o passar do testemunho. Terminara o "reinado dos Corrêas", começava o dos Albinos: o Provedor era, então, José Maria da Rosa Albino, que tivera o seu primeiro mandato como Provedor, no ano de 1898, permanecendo até 1901 no cargo, que retomou em 1903.
CORREA, Francisco Augusto Machado: Eleito vereador à Câmara Municipal de Setúbal no ano de 1877, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto, voltou à vereação no ano de 1878, tendo obtido 1104 votos.
Em 1881, o seu nome apareceu numa proposta de candidatos para a Câmara Municipal, em oposição à lista de Progressistas e Republicanos. Então, os Progressistas de Setúbal estavam divididos, pois uns defendiam a coligação com os Republicanos, enquanto os outros apoiavam a aliança com os Regeneradores.
Foi membro da Assembleia Eleitoral de S. Julião em 1886.
No ano de 1889 desempenhou o cargo de presidente da Câmara, em cuja condição enviou, após aprovação na sessão do dia 30, duas cartas de condolências pelo falecimento do Rei D. Luís; uma era dirigida ao novo Rei e a outra à Rainha viúva.
Nesse mesmo ano foi eleito, como primeiro elemento da lista vencedora, vereador à Câmara Municipal, e novamente presidente.
No dia 19 de Outubro de 1891, na qualidade de presidente da edilidade, mandou rezar missa por alma de D. Luís, para a qual convidou todas as entidades portuguesas e estrangeiras. Existem ainda os convites dirigidos aos vice-cônsules da Rússia e da Bélgica.
CORRÊA, Joaquim José: regenerador, formou com seu irmão José Manuel, progressista, a sociedade dos fornecedores de água, em pipas, oriunda da quinta do Prostes. Assim, quando o Dr. Rodrigues Manitto, presidente da Câmara, decidiu conceder, em 1876, licença a Vicente José Lopes de Azevedo para também distribuir água, deu, de imediato, início a um processo de luta contra esta decisão. O processo da água serviu assim de pretexto para a campanha política que se avizinhava. Como Joaquim José Corrêa era regenerador, e a festa do dia g de Julho de 1879 se destinava a ovacionar o candidato proposto por este partido, Conselheiro Arrobas, a expressão do povo, até então apelidado de ignorante pelos conservadores, passou a ser vista como inteligente porque "durante o trânsito pela praça (de Bocage) e enquanto o carro esteve parado naquele local, o povo que ali concorria era imenso e já por assim dizer transbordava da praça, as músicas tocavam os hinos da Carta e o de Setúbal. Houve vivas e foguetes. Por espaço de meia hora, enquanto se não esgotou a água gratuitamente ali oferecida ao povo, houve pois uma completa ovação popular." Este acontecimento, tal como muitos outros, ainda que menos expressivos, mostram claramente a maneira como os interesses económicas (neste caso concreto, os interesses dos Corrêa) manipulavam o povo de Setúbal.
Joaquim José Corrêa conseguiu dominar a Misericórdia de Setúbal, a partir de 1874, ao fazer eleger Provedor seu filho António Joaquim Corrêa.
Em 1881, na impossibilidade de António Joaquim Corrêa voltar a ser eleito, Joaquim José Corrêa "fez eleger" como Provedor o padre Francisco Lino da Silva, que obteve apenas 18 votos, após pedido de escusa do eleito Dr. Garcia Peres; então, o próprio Joaquim José Corrêa se fez eleger como Escrivão. O limitadíssimo número de votantes provocou críticas da parte da oposição que, pela pena de Campos Rodrigues, considerou ser esta a maior derrota do grupo de Joaquim José Corrêa.
No entanto, Joaquim Corrêa, tal como o padre Francisco Lino da Silva, foi alvo de alguns escândalos, como o do fornecimento de vinho, "que de vinho nada tinha", ao Hospital da Misericórdia. A imprensa de então denunciou estas e outras manobras que desprestigiaram a Santa Casa.
Joaquim José Corrêa não perdoou a Campos Rodrigues os relatos acusatórios que este fizera, na Gazeta Setubalense, sobre as suas actividades pouco claras. Assim, ao ser eleito vereador, iniciou um ataque cerrado ao Liceu, visando especialmente o seu director, Campos Rodrigues.
No ano de 1884, o problema do fornecimento de água à cidade mantinha-se, enquanto Joaquim José Corrêa continuava a vendê-la em pipas pelas ruas.
Quando, no dia 7 de Janeiro de 1894, reuniram trinta dos quarenta maiores contribuintes, para elegerem a comissão de recenseamento, Joaquim José Corrêa foi eleito como substituto pela maioria, então regeneradora.
No dia 8 de Abril de 1894 assinou, com mais 144 conhecidos conservadores, um manifesto que propunha como 10 elemento, para o "Colégio Distrital para a eleição de Pares do Reino", o Dr. António Rodrigues Manitto e para deputado Joaquim Pedro da Assunção Rasteiro. Então, seu irmão José Manuel Corrêa integrou a lista da oposição.
CORRÊA, José Manuel: Depois das referências que lhe foram feitas aquando da polémica questão da água, encontramos pela primeira vez o seu nome em 1881, numa lista de candidatos à Câmara de Setúbal, proposta pelos Progressistas, em oposição à apoiada por seu irmão Joaquim José Corrêa.
Em 1889 foi eleito vereador juntamente com Francisco Augusto Machado Corrêa, José António Januário da Silva, também progressista, Joaquim Augusto Arôcha Júnior, republicano, e outros elementos conhecidos em Setúbal.
Em 1891, por alturas da crise monetária, José Manuel Corrêa propôs a constituição de uma comissão incumbida de emitir cédulas representativas de 100, 200, 300 e 400 réis para facilitar os trocos das notas em circulação.
No ano de 1892 fez parte da comissão que organizou o "bando predatório, em favor das vítimas do temporal, na cidade de Setúbal.
Foi eleito vereador na lista de António José Batista, nas eleições municipais de 6 de Novembro de 1892.
Em Abril de 1894, José Manuel Corrêa era o segundo indigitado, na lista para Delegados ao Colégio Eleitoral para eleições de pares proposta por António José Batista, mais uma vez em oposição à apoiada por Joaquim José Corrêa. No dia 8 de Dezembro de 1895, foi eleito vereador, com mais 7 votos do que António José Batista.
CUNHA, José Gonçalves da: Em 1878 fez parte da sociedade instituída por Vicente José Lopes de Azevedo Júnior, para distribuição de água à cidade de Setúbal, com autorização da Câmara Municipal.
No ano de 1883, foi eleito Provedor com 53 votos, após recusa de António Maria Albino, que obtivera apenas 41 votos.
No dia 3 de Novembro deste mesmo ano, viu-se eleito vereador, numa lista composta por Progressistas e Republicanos, vindo a ocupar o cargo de vice-presidente, embora disputasse a presidência com João do Nascimento e Oliveira. Ambos eram membros da Associação Comercial.
Em 8 de Julho de 1884, foi eleito Provedor da Santa Casa da Misericórdia com 27 votos contra l do seu opositor Jorge Cabedo de Vasconcelos (votaram somente 28 Irmãos). Nas eleições de 1885 não aparece entre os votados, mas, em 1886, surge como candidato a Provedor, tendo obtido apenas um voto, contra 35 do seu oponente Jorge de Cabedo e Vasconcelos. (apenas votaram 36 Irmãos).
Integrou o grupo que formou a Assembleia Eleitoral de S. Julião, no ano de 1886.
O seu nome não volta a figurar entre os candidatos a cargos administrativos da Misericórdia senão em 1891, ano em cujo acto eleitoral obtém 1 voto para Companheiro de Tesoureiro e 1 voto para Mesário. Mas, por escusa do Companheiro de Escrivão, foi eleito para este cargo em segundo acto eleitoral, com 20 votos, lugar que voltou a conquistar no dia 11 de Julho de 1892 com 100 votos.
Em 1892 fez parte do grupo que organizou o bando precatório que percorreu a cidade, conseguindo a importância de 491 815 réis, tendo sido de 700 000 réis a importância entregue à rainha D. Amélia, organizadora do peditório para as vítimas do temporal que se verificara no Norte do País.
Neste mesmo ano, José Gonçalves da Cunha ofereceu gratuitamente 300 000 réis, até ao fim do ano, para continuação das obras do Hospital da Santa Casa da Misericórdia.
No ano de 1893 obteve um voto apenas, para o cargo de Companheiro de Tesoureiro da Misericórdia, facto que se repetiu no ano seguinte. Em 1898 alcançou um voto para o cargo de Tesoureiro e até ao ano de 1900 o seu nome não volta a aparecer entre os votados.
FERNANDES, José António: Em 1881 foi indicado como candidato a vereador suplente da Câmara Municipal pela comissão indigitada em reunião da Administração do Concelho. Veio a ser eleito como primeiro vereador suplente, com 999 votos, mais do que os do primeiro vereador, João Evaristo Ayres do Soveral, que obtivera 982 votos.
Integrou a Comissão Organizadora do Comício Liberal, que se realizou em Setúbal no dia 30 de Dezembro de 1894.
FIALHO, Mamede Mendes: Apontado em 1881 como candidato a vereador suplente da Câmara Municipal pela comissão indigitada em reunião da Administração do Concelho, não foi todavia eleito.
Em Abril de 1895 foi eleito como membro da Comissão Municipal Republicana.
FIDIÉ, Eng. Augusto Maria de Almeida Garcia: No ano de 1885 foi eleito vereador, com 588 votos, na lista encabeqada por João Carlos de Almeida Carvalho, que obtivera 994 votos. Como este pedisse escusa do mandato, o Eng. Fidié assumiu a presidência da Câmara.
Esta, de maioria regeneradora, presidida, após escusa de Almeida Carvalho, pelo coronel engenheiro Garcia Fidié, iniciou algumas obras de notória importância para a cidade, como: levantamento da planta de Setúbal, para lançamento das redes de esgotos e águas, projecto de construção de um novo bairro para pescadores e início do processo de abastecimento domiciliário de água. De novo o caso da água, ao ser aflorado, despertou o interesse da imprensa. João António da Silva, agrónomo-veterinário e jornalista da Gazeta Setubalense, escreveu, de imediato, sobre este acontecimento, facto que provocou a ira do presidente da Câmara, que, habituado aos procedimentos coactivos utilizados nas forças armadas, proibiu os funcionários de publicamente expressarem as suas opiniões sobre os problemas municipais. O jornalista submeteu-se à imposição do presidente, embora a considerasse .. ofensiva da liberdade de imprensa e do pensamento".
Entretanto, no dia 25 de Abril de 1886, nasceu em Setúbal um novo periódico, A Estreia, porta-voz do Partido Republicano, cujo redactor principal, um tal Anúplio de Oliveira, não era senão o jovem republicano Francisco Paulino de Oliveira. Este quinzenário foi substituído, no dia 26 de Setembro do mesmo ano, pela Semana Setubalense, que manteve o mesmo corpo redactorial e sobreviveu até 5 de Junho de 1887. A Estreia desencadeou uma onda de protestos contra a prepotência do presidente da edilidade, substituindo nessa função A Gazeta Setubalense, que apenas se limitou a publicar os anúncios do concurso para o fornecimento da água canalizada ao domicílio, concurso que ficou deserto. Na Câmara, os problemas avolumaram-se e, em Agosto, foram anunciadas novas eleições. A Estreia/A Semana Setubalense, como porta-voz dos Republicanos Setubalenses, criticou a actuação da Câmara, cuja vereação considerava desgovernada e tendenciosa, por ter dispendido avultadas verbas, no mês de Março, com os festejos do casamento do príncipe D. Carlos, em vez de pagar os oito meses de vencimento devidos às amas dos expostos.
A formação militar do Eng. Almeida Fidié ocasionou situações em que a prepotência do Presidente da Câmara desagradou aos funcionários e à população de Setúbal, como nos revelam os periódicos atrás referidos.
A Câmara presidida pelo Eng. Almeida Fidié, eleição para o biénio 1886-1887, durou apenas um ano, por força das alterações do Código Administrativo.
O Eng. Fidié não voltou a candidatar-se a qualquer cargo político.
FREITAS SENIOR, João Sesinando de: Eleito vereador da Câmara Municipal de Setúbal, no ano de 1877, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto.
Voltou a ser eleito, novamente na lista do Dr. Manitto, mas como substituto, no ano de 1878, com 1600 votos.
GOMES, Francisco Joaquim Soares: Alcançou o cargo de vereador para a Câmara de Setúbal, no ano de 1878, com 1530 votos, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto.
No dia 22 de Dezembro de 1885, em assembleia reunida nos Pagos do Concelho, foi eleito delegado suplente ao colégio distrital, incumbida de eleger quatro pares do Reino pelo distrito.
LIVERIO, José Maria: Em 1878 foi eleito vereador substituto, com 1469 votos, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto.
No ano de 1860 foi um dos quatro vereadores sorteados para permanecerem na vereação seguinte. Assim, asseguraram ainda naquele mandato a maioria progressista.
No ano de 1883 fez parte de um grupo que se apresentou como candidato à Câmara Municipal, sem feição partidária.
MAIA, Eduardo: No ano de 1890 surgiu como candidato republicano pelo círculo de Setúbal, nas eleições para o parlamento.
Eduardo Maia, candidato republicano, "filho do povo", dizia "odiar rancorosamente a monarquia" por ser um "regime de classe", comprovado com um exemplo bastante esclarecedor: "Um professor ganha menos do que um lacaio do rei"; não criticava a Igreja enquanto instituição, mas os seus ministros que, a troco de pequenos benefícios, moldavam o pensamento dos paroquianos; repudiava as atitudes de força que, facciosamente, tomava a autoridade administrativa de Setúbal, e apelava à fraternidade, para que todos colaborassem na santíssima obra da regeneração social!"
Os resultados eleitorais foram surpreendentes: pela primeira vez, o candidato republicano, não apenas conquistou uma altíssima votação no círculo 80, como ganhou na cidade de Setúbal, com 956 votos, contra 502 do seu adversário. Mesmo no concelho de Setúbal, o Dr. Eduardo Maia, com 1.077 votos, aproximou-se bastante do engenheiro Poppe, candidato do Governo, que obteve 1.325. A vitória do candidato monárquico foi consolidada em Alcácer porque as assembleias de voto eram vigiadas pelas autoridades e os trabalhadores receavam as represálias do dono da herdade de Palma, Conselheiro José Maria dos Santos. Assim, em Alcácer, o eng. Poppe obteve 1.266 votos, contra apenas 52 do candidato republicano.
Em 1892, o Dr. Eduardo Maia não se candidatou por considerar não estarem ainda reunidas as condições necessárias à eleição de um candidato republicano no círculo 80. Recomendava, no entanto, aos Republicanos que votassem no candidato exilado, João Pinheiro Chagas, para marcaram a presença no círculo.
O seu nome não volta a aparecer nos meandros políticos Setubalenses.
MANITTO, Dr. António Rodrigues: Filho do Dr. (em leis) António Rodrigues Manitto (ligado às ideias cartistas, que lhe valeram algumas perseguições) e de Inês Gaudêncio Manitto, nasceu na freguesia de Santa Justa, em Coimbra, no dia 19 de Fevereiro de 1819.
Diplomou-se em Medicina, pela Universidade de Coimbra, em Agosto de 1844.
Em Julho de 1845 foi "despachado" pelo Governo, como Guarda-Mor da Saúde de Setúbal.
Tal como seu pai, era acérrimo defensor do constitucionalismo; por ele lutou, como capitão, numa das alas do Batalhão da Terra, no combate do Alto do Viso, no dia l de Maio de 1847, após o que se demitiu das milícias.
Em 1866-67, foi eleito para a presidência da Câmara Municipal de Setúbal. Nas eleições de 1870 voltou à presidência do Município, permanecendo no cargo durante 12 anos (eleito 5 vezes seguidas).
Durante o seu mandato foi inaugurada a estátua de Bocage, no dia 21 de Dezembro de 1871; para este monumento contribuíram António Feliciano de Castilho e seu irmão José, que então se encontrava no Brasil, em missão diplomática, e lá promoveu uma subscrição com o produto desta, doze contos de réis por ele próprio trazidos no ano de 1866, acrescido da verba conseguido em Setúbal, perfizera-se a importância necessária para a aquisição da estátua.
Em 1873 a lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto ganhou de novo as eleições e ele permaneceu na presidência, embora houvesse oposição do grupo progressista liderado pelo jornalista Campos Rodrigues.
Neste mesmo ano, foi alargado o imóvel dos Pagos do Concelho, sendo para lá transferidos todos os serviços que funcionavam noutros edifícios, para o efeito alugados.
Em 1875 realizaram-se em Setúbal as Conferências Pedagógicas, começaram a funcionar aulas nocturnas e procedeu-se à remuneração dos professores com o apoio da Câmara Municipal, que também promoveu as Conferências Agronómicas.
Também neste mesmo ano, deu-se início aos trabalhos conducentes à organização de uma biblioteca pública, que contava já com mais de mil volumes.
Por carta de Lei de 1875 foi concedida à Câmara de Setúbal a utilização das receitas provenientes da taxa atribuída ao deslastre dos navios, para ser aplicada no prolongamento do cais, por meio de aterro. A Câmara era autorizada a utilizar a verba recebida durante dez anos. Até 31 de Dezembro de 1879, esta receita rendeu 17:951 947 réis, verba insuficiente, pelo que o governo concedeu a prorrogação do prazo a princípio atribuído.
Este problema do aterro provocou grande polémica, normalmente utilizada em campanhas eleitorais pelos oponentes do Dr. Rodrigues Manitto.
As estradas foram reparadas e, no dia 31 de Julho de 1876, inaugurado o mercado do Livramento.
Neste mesmo ano foi concedida licença a Vicente José Lopes de Azevedo para distribuir água em pipas pelas ruas de Setúbal e o matadouro foi reconstruído.
Foram ainda construídos os cemitérios de Azeitão, Palmela e Marateca.
Em Abril de 1877, o Dr. Rodrigues Manitto adquiriu os estudos históricos de Manuel Maria Portela, e incumbiu Alberto Pimentel de, a partir deste documentação, elaborar a Memória sobre a História e Administração do Município de Setúbal.
Em Novembro de 1877 surgiram alguns manifestos eleitorais contra a Câmara, nos quais o presidente, Dr. António Rodrigues Manitto, era acusado de malfeitorias na cidade de Setúbal. De entre elas salientava-se a concessão do monopólio da água, o aterro do cais, a falta de atenção para com a salubridade; e ainda de corrupção por "gratificar os seus afilhados e compadres".
Nas eleições municipais que se realizaram no ano de 1877, foi fortemente reforçada a oposição ao Dr. Rodrigues Manitto; os Progressistas apresentaram uma lista encabeçado pelo Dr. Domingos Garcia Peres, seguido de António Maria de Campos Rodrigues, enquanto um grupo de indivíduos, cujo primeiro nome é Francisco José Motta, republicano, se propunha apoiar qualquer lista desde que não figurasse nela o nome do Dr. Manitto.
O Dr. Rodrigues Manitto ganhou novamente as eleições, facto com que os amigos se congratularam publicamente; entretanto, como se reconciliara com Campos Rodrigues e o incluíra na sua lista de vereadores, foi alvo de algumas críticas.
A 13 de Outubro de 1878, apoiou o Conselheiro António Maria Barreiros Arrobas para deputado pelo círculo 101, a que ficara a pertencer Setúbal.
No dia 4 de Agosto de 1878, foi novamente eleito para a Câmara Municipal, com 1667 votos.
Em 30 de Maio de 1879 o Centro Político, presidido por Rodrigues Manitto, foi acusado pelos Regeneradores de fazer "jogo duplo", ao declarar-se opositor do deputado Arrobas, que anteriormente elogiara.
O perfil político do Dr. António Rodrigues Manitto foi bastante sinuoso. A sua filiação partidária, embora declaradamente progressista, era por demais duvidosa, não apenas pelas atitudes tomadas enquanto presidente do Centro Político, mas também pela oposição que grupos progressistas lhe fizeram enquanto exerceu as funções de presidente da Câmara (veja-se o caso das eleições em 1877).
Em 1879 apoiou o candidato a deputado António de Campos Valdez, progressista, proposto pelo Governo, contra António Maria Barreiros Arrobas, regenerador, já anteriormente eleito.
Na primeira reunião do novo grupo de vereadores para o biénio de 1880/81, o Dr. Rodrigues Manitto, ao abandonar o cargo de presidente, fez um relato sobre a administração local e entregou a presidência a António Maria Albino, regenerador, que foi o vereador mais votado.
No ano de 1880, fez parte da comissão incumbida de verificar as necessidades mais prementes da cidade de Setúbal e de elaborar uma lista para ser entregue ao Governador Civil substituto, aquando da sua visita a esta cidade.
No ano de 1889 integrou a Assembleia Eleitoral de S. Julião.
Neste mesmo ano foi eleito para a Junta Geral do Distrito, com 1904 votos, contra 67 do seu opositor Dr. Francisco Teixeira de Queiroz. Para esta eleição teve o apoio dos Regeneradores numa lista de união monárquica contra os Republicanos, em franca ascensão na cidade.
Entre 1845 e 1888 exerceu, no Hospital da Misericórdia de Setúbal, o cargo de director da enfermaria de homens, destinada a medicina geral, chamada de S. Sebastião e, posteriormente, da de mulheres, sob o nome de Santa Maria. Contudo nunca foi Irmão da Santa Casa da Misericórdia.
Nas eleições para deputado, realizadas no dia 23 de Outubro de 1892, apoiou o candidato regenerador, proposto pelo Governo, através do administrador do Concelho, Maurício Carlos Martins de Oliveira.
Rodrigues Manitto foi ainda primeiro substituto do Juiz de Direito, Presidente do Asilo da Infância Desvalida, membro da guarda-mor da saúde do Porto nos anos de 1888-90 e Comendador da Ordem de Cristo.
Faleceu no dia 12 de Janeiro de 1906.
MASCARENHAS, João Rodrigues da Cunha Aragão: Candidatou-se a deputado, pelo círculo de Setúbal, nas eleições realizadas no dia 11 de Abril de 1869. Foi apresentado como candidato do Governo, então fusionista. Não teve oposição e foi eleito com apenas 730 votos.
Após dissolução da Câmara dos Deputados e consequente acto eleitoral no dia 13 de Março de 1870, recandidatou-se no círculo e venceu as eleições com apenas 617 votos no Concelho.
Ainda não eram, no entanto, decorridos seis meses, e novas eleições se realizavam. Aragão Mascarenhas apoiou o Conselheiro António Maria Barreiros Arrobas, contra o bacharel José Jacinto Nunes proposto pelo Governo, então regenerador. E claro o clima de tensão em que os Regeneradores viviam: o Governo propôs um candidato conotado com os ideais republicanos, enquanto os seus correligionários apresentavam outro candidato, um Regeneredor influente no concelho, pelo que conseguiu 1775 votos, contra 908 do seu oponente.
A partir desta data não foram encontradas quaisquer referências a Aragão Mascarenhas em notícias relacionadas com Setúbal.
MELO, Fontes Pereira de: Nasceu em Lisboa, a 8 de Setembro de 1819, e faleceu na mesma cidade, no dia 22 de Janeiro de 1887. Fidalgo da Casa Real, do Conselho de Sua Majestade e do Conselho do Estado, chefe do Partido Regenerador, Ministro e Secretário de Estado em diversas épocas, várias vezes Deputado, o seu curriculum é, tão conhecido e a sua vida tem suscitado tantas análises de especialistas vários, que nos abstemos de repetir tudo o que se tem dito acerca do prestimoso estadista. Limitar-nos-emos a referir um caso acidental da sua vida: a candidatura a deputado, pelo circulo de Setúbal.
Em 1860 assinou o decreto que elevava Setúbal à categoria de cidade. Em Junho do mesmo ano, concorreu a deputadopelo círculo de Setúbal, contra o então presidente da Câmara, Aníbal Alvares da Silva. O seu manifesto eleitoral, apelando à luta contra o Governo, que acusava de "despótico e imoral", realçava as qualidades dos governantes regeneradores. Um outro panfleto, em verso, fazia graves acusações a Aníbal Alvares da Silva, colocando as palavras na sua própria boca. Apela ao voto no candidato Fontes Pereira de Melo que, segundo os proponentes, reunia todas as qualidades para remoçar o território abrangido pelo círculo eleitoral a que se candidatava. Não conseguiu, porém, vencer a popularidade de Aníbal Alvares da Silva e perdeu as eleições.
MESQUITA, Diogo Tomás de: foi eleito vereador substituto à Câmara Municipal de Setúbal, com 1443, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto, no ano de 1878.
MOTA, Francisco José da: O grupo progressista promoveu uma sessão popular, no dia 15 de Novembro de 1877, destinada a escolher "os cidadãos" que deviam "compor a vereação para o […] biénio de 1878 a 1879". Presidiu a esta sessão Francisco José Mota.
Apareceram então dois abaixo-assinados: um da área regeneradora e outro misto, em que Progressistas e Republicanos faziam a sua proposta para a vereação. Francisco José da Mota era um dos subscritores do segundo.
Em Agosto de 1880, ao falecer uma filha de Francisco José da Mota, este recusou o acompanhamento religioso, facto que desencadeou forte polémica na cidade. Esta conduziu à demissão da professora da escola primária oficial das freguesias de Santa Maria e S. Sebastião, Hermínia Borges de Campos, que pediu às alunas para acompanharem o préstito da colega falecida. Francisco José Mota e Hermínia Borges de Campos, como não possuíam ainda na cidade de Setúbal um jornal que lhes fosse afecto, responderam no Partido do Povo, jornal republicano da capital, às acusações de Campos Rodrigues, expressas na Gazeta Setubalense.
No dia 10 de Janeiro de 1881, os jornalistas progressistas e republicanos uniram-se contra a Associação Protectora dos Operários, que apelidavam de jesuítica, e Francisco José da Mota abraçou os redactores do Correio do Sado e da Gazeta Setubalense, agora unidos contra a linha reaccionária que tentava implantar-se de novo na cidade.
Em Janeiro de 1894 Francisco José da Mota assinou um comunicado, em nome de um grupo de republicanos, convidando "todos os eleitores democratas" para uma .. reunião eleitoral" no dia 21, no teatro de Bocage, pelas 4 horas da tarde, a fim de decidirem se deviam ou não "aceitar a luta com os candidatos monárquicos".
Em Dezembro de 1894, à semelhança do que acontecera em Lisboa, realizou-se em Setúbal o Comício Liberal, de cujas comissões organizadoras fez parte Francisco José da Mota, que assinou o comunicado à população.
NOVAES, Joaquim da Costa: No ano de 1878 foi eleito vereador, com 1594 votos, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto, embora o seu nome constasse também de uma outra defendida por um grupo de Regeneradores, Irmãos da Misericórdia, que se opunham à proposta feita pelo grupo progressista em sessão popular, no ano de 1877.
Em 1880 integrou a Comissão nomeada pelo governador do concelho, Dr. Vilaça, quando o Governador Civil substituto do Distrito de Lisboa, Dr. Vicente Monteiro, visitou Setúbal, para tomar conhecimento das necessidades deste concelho.
Fez parte do grupo que reuniu, no dia 3 de Setembro de 1883, para tentar elaborar uma lista de candidatos que concorresse às eleições da Câmara de Setúbal, que se avizinhavam. Ele era o segundo proposto, enquanto o primeiro era João Carlos de Almeida Carvalho.
O grupo convocou, para o dia 20 de Outubro, uma reunião no Hotel Escoveiro, para se decidir dos nomes dos candidatos, mas esta não se realizou por falta de assistência.
No dia 22 de Dezembro de 1885, em assembleia reunida nos Paços do Concelho, com a presença dos vereadores, dos 40 maiores proprietários e dos 40 maiores industriais, foram eleitos os delegados ao colégio distrital incumbido de eleger quatro pares do Reino pelo respectivo distrito, sendo Joaquim Novaes indicado como suplente.
Fez parte da Assembleia Eleitoral de S. Julião em 1886.
No dia 8 de Abril de 1894, foi indicado como um dos substitutos dos "eleitores ao Colégio Distrital para a eleição de Pares do Reino".
No ano de 1916 Joaquim da Costa Novais ofereceu-se para adiantar à Misericórdia a importância de que esta necessitasse, para proceder à exploração, por conta própria, das marinhas, e providenciar à embarcarão do respectivo sal, proposta que foi aceite por mais rentável.
NUNES, José Jacinto: Bacharel em Direito, conotado com os ideais republicanos, ocupou durante alguns anos o cargo de Presidente da Câmara de Grândola.
Foi candidato a deputado nas eleições de 18 de Setembro de 1870, pelo círculo 740, Setúbal, indicado pelo Governo Regenerador. Perdeu, tendo obtido 908 votos, contra 1775 do Conselheiro Arrobas, apoiado pelo anterior deputado do círculo, Aragão Mascarenhas.
No ano de 1881, estando novamente no Governo o Partido Regenerador, o Dr. Jacinto Nunes voltou a candidatar-se a deputado pelo círculo de Setúbal, como republicano, portanto já sem o apoio governamental.
Então, Campos Rodrigues, na Gazeta Setubalense, considerava-o "um dos homens mais firmes nas suas ideias".
Após nova dissolução das Cortes, em 27 de Maio de 1884, o Dr. Jacinto Nunes apresentou-se de novo ao eleitorado de Setúbal, contra António Alfredo Baraona de Freitas, filho do Ministro do Reino e apoiado pelos Progressistas: obteve 403 votos, contra 2088 do candidato monárquico.
Em 1886, quando os progressistas estavam novamente no Governo, Jacinto Nunes reaparece como candidato republicano pelo círculo 80 - Setúbal -, contra o candidato do Governo, António Alves Pereira da Fonseca, advogado, progressista, proposto pelas comissões eleitorais das quatro freguesias da cidade. Feito o apuramento eleitoral, Jacinto Nunes obteve 486 votos, contra 2816 do seu opositor.
O candidato republicano obteve maior número de votos nas freguesias periféricas, nas quais se aproximou do seu adversário, apoiado pelo Governo. Na freguesia da Anunciada, por exemplo, o Dr. Fonseca conseguiu 247 votos e o Dr. Jacinto Nunes, 169.
O seu nome reapareceu no ano de 1894, quando se realizou, em Setúbal, no dia 30 de Dezembro, o Comício promovido pela Coligação Liberal, no qual fez uma intervenção e apresentou uma moção que foi aprovada. Assim, os cidadãos Setubalenses reunidos ficavam comprometidos a "repelir o absolutismo e restaurar a ordem na governarão do Estado, pela aplicação dos princípios liberais."
A partir de então, não voltamos a encontrar referência ao Republicano Dr. Jacinto Nunes.
OLIVEIRA JÚNIOR, João José de: Eleito vereador à Câmara Municipal de Setúbal no ano de 1877, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto, foi reeleito, no mesmo grupo, em 1878. com 1662 votos.
No ano de 1880, integrou o corpo de vereadores progressistas que constituíam a maioria na Câmara, sorteados do mandato anterior.
OLIVEIRA, João do Nascimento: Em finais de 1881, foi indigitado para candidato à vereação da Câmara de Setúbal, numa lista encabeçado pelo Dr. João Evaristo Ayres do Soveral. Foi eleito com 982 votos.
Em 1883, quando João do Nascimento Oliveira, na qualidade de presidente da Câmara, apresentou o orçamento para 1884, o problema do Liceu voltou a ser aflorado. Os Regeneradores insurgiram-se contra a verba atribuída àquela instituição, na pessoa do seu director.
No dia 22 de Dezembro de 1885, em assembleia reunida nos Paços do concelho, com a presença dos vereadores, dos 40 maiores proprietários e dos 40 maiores industriais, foi eleito segundo delegado efectivo ao Colégio Distrital, incumbido de eleger quatro pares do Reino pelo respectivo distrito. O primeiro era o Dr. Domingos Garcia Peres.
OLIVEIRA, Maurício Carlos Martins de: Foi eleito vereador substituto, no ano de 1879, com 1809 votos.
Quando, em 1880, a situação financeira da Câmara Municipal foi considerada catastrófica, Maurício de Oliveira e Joaquim Rasteiro, ambos regeneradores, decidiram convocar um comício para dar conhecimento à população dos seus actos e ouvir a opinião da assembleia, pois estavam a lutar com sérias dificuldades para continuar a administrar a edilidade. Era um golpe político, que a imprensa afecta aos Progressistas denunciou. Campos Rodrigues, na Gazeta Setubalense, apelava ao espírito bairrista dos Setubalenses, ao denunciar o sectarismo dos vereadores Joaquim Rasteiro e Carlos Maurício, que apenas se interessavam por Azeitão, em detrimento de Setúbal.
Em 1880 Maurício Oliveira integrou a comissão incumbida de fazer o relatório sobre as necessidades mais urgentes do concelho, a entregar ao Dr. Vicente Monteiro Governador Civil substituto do Distrito de Lisboa, @ue se deslocava a Setúbal.
Ao principiar 1881, integrava o grupo regenerador na Câmara de Setúbal.
No dia 11 de Junho de 1889 esteve presente, na qualidade de Administrador do Concelho, ao acto através dó qual todo o edifício do ex-Convento de Jesus e bens nele existentes passaram para a Misericórdia de Setúbal.
A 5 e a 12 de Novembro de 1891 foram distribuídos os prémios aos melhores alunos, tendo discursado várias entidades, de que se "destacou o administrador do Concelho, Maurício Carlos Martins de Oliveira".
No dia 23 de Outubro de 1892, realizaram-se eleições para deputados. Maurício de Oliveira apoiou a proposta governamental, que apresentou a candidatura do Regenerador Jaime Artur da Costa Pinto, presidente da Câmara de Cascais, contra António José Batista, progressista, natural de Setúbal.
Os ânimos agitaram-se na cidade porque o administrador do Concelho, Maurício Carlos Martins de Oliveira, era muito contestado por causa dos incidentes verificados na cidade aquando do Ultimatum Inglês. A oposição acusava-o de ser o causador dos tristes incidentes de 2 de Março de 1890, quando o povo de Setúbal tentava evitar que navios ingleses carregassem produtos nacionais no porto, para evitar que os britânicos usufruíssem das regalias que o comércio português lhes proporcionava. Embora não tivesse havido mortos, mas apenas um incêndio no cais, que atraiu muito povo, um popular foi preso ao tentar entrar no recinto para ajudar a dominar o fogo. Todos os presentes protestaram contra a injusta atitude das autoridades e exigiram a libertação do prisioneiro, mas não foram atendidos, pelo que se insurgiram lançando pedras às autoridades. O administrador Maurício de Oliveira solicitou a comparência das forças de Caçadores 1, que dispararam contra os manifestantes: mataram um pescador e feriram outros populares, tendo ficado feridos alguns militares também.
Este incidente ficou presente na mente dos Setubalenses, que não perdoaram ao administrador do concelho a falta de senso e de capacidade de diálogo. Assim, durante a campanha eleitoral de 1892, António José Batista aproveitou a animosidade existente, e recordou os factos então passados, para atacar o seu opositor. Fez distribuir, pela cidade, panfletos tarjados de preto, com a data de 2 de Março de 1890, em letras vermelhas.
Mas os problemas com o administrador Maurício de Oliveira não tinham acabado ainda. A Folha do Povo, em Lisboa, no dia 2 de Dezembro de 1892, anunciou: "em Setúbal lavra grande descontentamento por causa de ter voltado para ali o antigo administrador Maurício de Oliveira. Esperam-se acontecimentos graves provocados pela imprudência de quem atendeu mais à vaidade do dito administrador do que à dignidade do povo Setubalense".
No dia 12, A Folha do Povo publicava uma notícia, sob o título "Setúbal", assinada por "Salmonete" que, em tom satírico, comentava a polémica entre o administrador Maurício de Oliveira e o presidente da Câmara, António José Batista:
"As questões mais palpitantes na semana última foram o preço do marimbo no club cá da aldeia, e a reentrada do Snr. administrador Maurício para a gerência do concelho, o que também me parece uma grande marimbadela nos amigos do Snr. Batista.
Um cúmulo de marimbo!
Esta Questão Maurícia lembra-me aquela história do sujeito que se levantava muito tarde, e que tendo duas manas, uma afirmava que era bom, higiénico, saudável, o mano levantar-se cedo; outra sustentava que, ao contrário, era útil, agradável e cómodo o levantar-se tarde; o mano esperava na cama a decisão da questiúncula das manas, e dava em resultado levantar-se sempre perto do meio-dia.
O Snr. Maurício deve sair - dizem uns - porque é incompatível com este concelho, porque é injusto, porque é rancoroso, porque é vingativo.
O Snr. Maurício deve ficar - berram outros - porque é hábil, funcionário honesto, bom sujeito, um coração de pomba, uma alma santa.
E, enquanto esta questão se debate, o Snr. Maurício vai ficando.
O diabo é que o Snr. Batista já apita, que parece um comboio expresso, suplanta até o nosso simpático Costa, o tal que nós sabemos.
Ora o Snr. Maurício tem por si o grand monde, a alta aristocracia cá da terra, aqueles que vestem pelo último figurino, aqueles que até trazem brasão na camisa de dormir.
Contra tem apenas a canalha que se compra por quinhentos mil réis, a gente miúda, o Zé-povinho, aquele Zé-songa-monga, que levou valente sova no dia 2 de Março de 1890, e que anda a requerer nova folia nos costados.
Em vista disto deve ficar o Snr. Maurício!
E se não fica?! ...
Onde vai parar a grande importância da alta aristocracia salmoneteira?!
E se ele sai?!
Tem que se cobrir de crepes os brasões das carruagens (que por tal sinal ainda não pagaram a contribuição sumptuária), tem que se envolver em pesados lutos o grande bezerro de ouro... tem finalmente que aparecer tarjado de negro o papel do tal que apita...
E se ele fica?!
Protesta a câmara, agita-se o povo, fecham-se as lojas e rebenta o Batista numa congestão de bílis!! ...
E se ele sai?!
Tocam as filarmónicas, sobem girândolas de foguetes, há luminárias, jantares de gala e bodo aos pobres.
E se ele fica?
Não há coisa nenhuma, porque a alta tem muita dedicarão, mas não gasta vintém!
Então sai ou fica?!
O Batista espreme-se, gesticula, guincha, dá fífias a dizer que ele sai.
O Costa Pinto canta de tenor a dizer que ele fica.
Quem podia dizer alguma coisa a este respeito era o Snr. José Dias Ferreira.
Mas isso diz ele que é curioso!
Aquilo é que é um gajo! ...
No grémio, como já disse, houve questão de marimbo.
A três vinténs querem uns, a pataco querem outros.
Os pataqueiros fizeram greve e a Assembleia Geral reuniu-se.
A direcção dos três vinténs levou cheque e diz que sai. Sai ou fica?!
Estão esperando a opinião do Snr. Maurício.
Esteve aqui o Snr. Giordano, o notável prestidigitador. Não admirou ninguém!
Depois dos parafusos da urna de Alcácer já não há Giordanos que pasmem a gente.
Aquilo é a última palavra na arte de escamotear.
Em Setúbal está a desenvolver-se o útil e agradável sistema de falar ao telefone.
O nosso amigo António Igreja veio abrir na pátria de Bocage uma nova época de progresso e civilização.
Um antigo morgado, recente comendador e novel visconde, vai fazer aquisição dum aparelho, mas para falar unicamente para um lado.
Ele deseja a linha para as suas propriedades e os servos não podem telefonar-se com os amos.
Era o que faltava!
Consta que o Snr. Maurício (se ficar) vai proibir que as filarmónicas toquem o hino do Snr. Batista.
Pobre Snr. Batista!
Se lhe suprimem as gaitadas é um homem morto! ...
Uma pergunta inocente:
- Se sair o Snr. Maurício também sai o Snr. Macaco? ...
Salmonete"
No ano de 1893, aquando da crise de trabalho na indústria de conservas de peixe que atingiu todos os seus trabalhadores, mas principalmente os soldadores, a Comissão formada para tratar do assunto foi presidida por Maurício de Oliveira, antigo e polémico administrador do concelho.
No dia 7 de Janeiro de 1894, integrou a comissão de recenseamento, a que presidiu.
No ano de 1894, Campos Rodrigues, ao criticar as atitudes de António José Batista, aproveitou a ocasião para, mais uma vez, acusar Maurício de Oliveira. Oiçamo-lo: "isto não é política, é inexperiêneia, é loucura, é balbúrdia, é tudo quanto queiram menos proceder com acerto, porque se procedeu exactamente à vontade do Snr. Maurício".
No dia 8 de Abril de 1894, assinou um manifesto que propunha o Dr. António Rodrigues Manitto para representante de Setúbal no "Colégio Distrital para a eleição de Pares do Reino". Assinaram o documento mais 144 cidadãos, entre os quais se destacavam conhecidas personalidades regeneradoras e progressistas.
Nos seus artigos, Campos Rodrigues continua a considerar Maurício Oliveira um ser miserável, indigno da consideração dos Setubalenses mais íntegros. Eram estas as suas palavras: "[…] A vossa dignidade, não tem comparação possível com a dos miserandos, com a dos Maurícios e quejandos. […] Se por desgraça nossa a RASTEIRAL candidatura triunfasse veríamos em breve administrador do concelho um MAURÍCIO e, com ele, a repetição do dia 2 de Março".
Então, os Republicanos dividiram-se; o seu candidato, Dr. Teófilo Braga, obteve uma votação baixíssima. A imprensa que lhes era afecta atribuiu os resultados eleitorais, e com razão, à necessidade que os Setubalenses sentiram de vencer o candidato governamental e o "administrador Maurício".
PEDROSA, Germano Augusto da Silva: Era administrador do concelho de Setúbal no ano de 1868, aquando da campanha eleitoral. Então, apareceu um documento manuscrito (ao que parece da autoria de Dias Pereira, ou de homens de sua confiança) que o acusa de conivência com o Dr. Aníbal Alvares, novamente candidato à presidência da Câmara e a deputado. Assim, era acusado de dar cobertura a situações pouco claras, de caciquismo e corrupção, criadas pelo então presidente da Câmara e deputado pelo círculo eleitoral de Setúbal. Denunciava ainda atitudes pouco correctas na manutenção da ordem, pois o administrador Pedrosa, para não desagradar a alguns apoiantes do Dr. Aníbal, em vez de prender os desordeiros, decretou o recolher obrigatório nas noites que antecederam as eleições.
Não aparecem outras referências à sua actuação enquanto administrador do concelho.
PEREIRA, Domingos Dias: No ano de 1865, com o processo fusionista, candidatou-se a deputado, como independente, em oposição ao candidato proposto pelo Governo, o progressista Aníbal Alvares da Silva, mas foi derrotado. No seu manifesto eleitoral comunicava à população que fizera donativos a associações, irmandades e igrejas, no valor de 1030 000 réis, e que, se fosse eleito, ofereceria os seus honorários de deputado. Fez algumas acusações ao Dr. Aníbal Alvares, desafiando-o a seguir o seu exemplo de abnegação, dando também esmolas e os provemos de deputado, se vencesse a eleição. Terminado o escrutínio, e verificado a estrondosa derrota, escreveu aos seus 282 votantes a agradecer a confiança que nele haviam depositado e desafiava os "inimigos políticos" a provar publicamente as acusações que lhe haviam feito durante a campanha.
O Dr. Aníbal, em comunicado de agradecimento pelos votos que lhe deram a vitória, comentava que Domingos Dias Pereira fizera promessas a Deus e aos eleitores, mas mesmo assim não conseguira ganhar.
Em 1867, ao que tudo indica que tudo indica elaborado por Domingos Dias Pereira, pelas alusões feitas às suas promessas quando candidato a deputado, no ano de l865 apareceu um folheto onde eram atacados os elementos da vereação em exercício e os do Centro Político, presidido pelo presidente da Câmara, e se fazia um apelo ao voto na "chapa" independente.
No ano de 1868, as eleições para a Câmara Municipal foram disputadas por duas listas, uma encabeçado por Aníbal Alvares da Silva e a outra por Domingos Dias Pereira, seu opositor nas eleições para deputados em 1865. O primeiro venceu, mas o segundo ficou como vice-presidente.
As referências à intervenção de Dias Pereira na vida política Setubalense não voltam a aparecer na imprensa, quer local, quer nacional.
PERES, Domingos Garcia: Filho de Domingos Garcia e de Antónia Peres, ambos espanhóis, nasceu na vila alentejana de Moura, no dia 4 de Agosto de 1812. Estudou no Colégio Universitário do Sacro Monte, em Granada, onde se distinguiu como aluno.
Cursou medicina em Sevilha e Cádis, onde obteve o grau de licenciatura e, mais tarde, de doutoramento.
Entretanto, contactou com figuras eminentes da vizinha Espanha como: Frederico Benjumea; Frederico Rúbio (operadores); António Garcia Gutierres (dramaturgo, que escreveu parte da sua obra no quarto de Garcia Peres); Mariano Larra; Martinez de la Rosa; Agustin Duran; Eugénio Hartzenbusck; Angel Saavedra, duque de Rivas; José Espronceda; Milá y Fontanels; José Zorrilla; etc., seus contemporâneos e colegas de colégio.
Em Julho de 1839, regressou a Portugal e revalidou o diploma de medicina, obtido em Cádis, perante a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa.
No ano de 1839, foi colocado como médico municipal em Alcácer do Sal, onde permaneceu até 1846.
Neste último ano casou com Maria Amália Albino, filha do proprietário Setubalense Agostinho Maria Albino, agente do antigo monopólio do tabaco, homem com poderosa influência eleitoral.
Assim, instalou-se em Setúbal onde exerceu as funções de Guarda-Mor da Saúde até 1863.
Entrou na política por pressão do sogro e não por seu desejo, pois era pouco dado a discursos e nunca chegou a inscrever-se num partido político.
No ano de 1860, candidatou-se, pela quarta vez, a deputado pelo círculo de Setúbal e venceu Aníbal Alvares da Silva, com a votação de Palmela, uma vez que o seu opositor venceu na cidade. Entrara em decadência e a sua vitória deveu-se apenas ao sogro Agostinho Rodrigues Albino, rico proprietário e comerciante de Setúbal.
Durante a campanha eleitoral, os apoiantes do Dr. Aníbal teceram-lhe várias críticas e invocaram a sua incapacidade oratória, atribuindo a sua vitória às manobras pouco claras do sogro, que apenas desejava ter um genro deputado. Assim, em panfletos definiam-no como... quedado, sonoliento e em apatia", referindo-se ao seu temperamento introvertido e à sua vivência espanhola.
Logo que foi eleito deputado, o Dr. Garcia Peres dirigiu-se aos eleitores, agradecendo a confiança que nele depositaram, ao elegê-lo pela quarta vez para ser seu representante no Parlamento. Ao referir-se ao Dr. Aníbal, fá-lo de modo acintoso e provocatório, acusando-o de "ingratidão, deslealdade e perfídia, […] [de] louca ambição [que] só pode comparar-se à ousadia e desfasamento com que para a satisfazer lança mão dos meios mais torpes e mais iníquos". Ao dirigir-se aos seus concidadãos, ignorou a derrota sofrida na cidade, pois diz claramente: "felizmente aqui todos nos conhecemos […]"; desmistificou a incapacidade oratória e literária de que o acusavam, atribuindo-a ao seu opositor.
O Dr. Garcia Peres era um homem culto, mas sem dom de palavra; não proferiu um único discurso no Parlamento, nem mesmo consta que falasse em público. No entanto, teve a honra de assinar, como deputado pelo círculo, o decreto que elevou Setúbal a cidade, no dia 19 de Abril de 1860.
No ano de 1863, transferiu a residência para Lisboa, onde desempenhou as funções de sub-chefe do serviço de saúde da Companhia Real dos Caminhos-de-Ferro, estabelecido por um seu amigo, o famoso José Salamanca. No ano de 1870, abandonou o cargo e voltou a Setúbal.
Como médico do Hospital da Misericórdia de Setúbal, no dia 9 de Janeiro de 1889, emitiu um parecer sobre as condições favoráveis do edifício destinado às novas instalações da instituição, no antigo convento de Jesus.
Em Novembro de 1877 foi o primeiro proposto para a vereação da Câmara de Setúbal, pelo Partido Progressista, contra o então presidente, António Rodrigues Manitto, que voltou a ser eleito.
Em 1880, era presidente da direcção do Asilo da Infância Desvalida. Neste mesmo ano, fez parte da Comissão incumbida de elaborar uma lista de necessidades urgentes, a solicitar ao Dr. Vicente Monteiro, Governador Civil substituto, aquando da sua visita a Setúbal.
Em 1881 foi eleito, com apenas 32 votos, como Provedor da Misericórdia de Setúbal, mas recusou o cargo, facto de que, aliás, já havia dado conhecimento antecipadamente.
Em 1885 foi eleito como delegado ao Colégio Distrital, que tinha como atribuições eleger quatro Pares do Reino, em representação do distrito.
Redigiu o Catálogo Razonado, biográfico e bibliográfico, de los autores portugueses que escribieron en castelhano, publicado em Madrid, no ano de 1890, com parecer dado, em 1887, pela Academia Espanhola. Em 1892, Teófilo Braga lavrou um parecer no qual aconselhava à Academia das Ciências de Lisboa a publicação do Catálogo Razonado.
Escreveu ainda sobre a Roda do Sal, com cuja liberalização não concordava.
Era membro da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa e correspondente da Real Academia Espanhola. Tinha as veneras de comendador de Isabel a Católica e de Carlos iii.
Faleceu no dia 27 de Janeiro de 1902.
Possuía uma biblioteca composta por inúmeras obras de valor, que deixou a seu neto, o Dr. Domingos Fernando Garcia.
PIMENTEL, Alberto: Não era Setubalense nem viveu em Setúbal, mas esteve ligado a esta cidade em momentos importantes da sua história.
Era membro da Academia Real das Ciências de Lisboa e do Instituto de Coimbra.
Enquanto Inspector escolar, teve a seu cargo o concelho de Setúbal. Sob a sua orientação realizaram-se neste concelho, no ano de 1875, as Conferências Pedagógicas, começaram a funcionar aulas nocturnas e procedeu-se à remuneração dos professores, com o apoio da Câmara Municipal.
Tendo como suporte científico os estudos históricos de Manuel Maria Portela, escreveu em 1877, a pedido da Câmara Municipal, o livro intitulado Memória sobre a História e Administração do Município de Setúbal, impresso a expensas da edilidade, na Tipografia de G. A. Gutierres da Silva, na rua Nova da Palma, no 33, em Lisboa.
Como jornalista foi, com Francisco Matos da Costa, fundador da Revista de Setúbal, órgão do Partido Regenerador. O seu primeiro número foi publicado no dia 3 de Julho de 1884.
Escreveu as seguintes obras:
Cantares, versos com um prólogo de Tomás Ribeiro.
Portugal de Cabeleira, edição do Pará.
Porfia no Serão, poemeto.
O Livro das Flores.
O Livro das Lágrimas.
Homens e Datas, com o retrato do autor.
O Testamento de Sangue, romance.
Do Portal à Clarabóia.
Joaninha, poemeto.
Entre o Café e o Cognac.
Rosas Brancas, poemeto, com introdução do Visconde de Castilho.
Cristo não Volta, narrativa.
O Anel Misterioso, romance (2 edições).
A Porta do Paraíso, romance (3 edições).
Contos ao Correr da Pena.
Idílios à Beira d'Água, romance.
Esboços e Episódios.
Peregrinações na Aldeia.
Nervosos, linfáticos e sanguíneos.
A Caridade Anónima.
O Natal na Residência, poemeto, (
com introdução de Camilo Castelo Branco).Biografia de Júlio Dinis.
Fotografias de Lisboa.
Mistérios da Minha Rua.
Dicionário de Invenções, Origens e Descobertas Antigas e Modernas.
Guia do Viajante no Porto.
Guia do Viajante nos Caminhos-de-Ferro do Norte em Portugal.
Um Conflito na Corte, romance histórico em 2 volumes.
A Ultima Ceia do Dr. Fausto, opúsculo romântico.
As Noites do Asceta, opúsculo Romântico.
Vinho, narrativa popular.
Capote do Snr. Brás.
Porto por fora e por dentro.
Viagens à roda do Código Administrativo.
O Romance da Rainha Mercedes.
Álbum de Ensino Universal.
Conferência Pedagógica recitada no dia 17 de Abril de 1875, perante todos os professores de instrução primária do concelho de Setúbal.
Discursos recitados na abertura do gabinete de leitura e no primeiro sarau literário da sociedade Pátria e Família, Porto, 1869.
Da Importância da História Universal Filosófica na Esfera dos Conhecimentos Humanos; dissertação para o concurso da primeira cadeira do Curso Superior de Letras.
Memória sobre a História e Adainistração do Município de Setúbal.
E fez algumas traduções de obras várias como:
Degredado, romance.
A Virtude de Rosina, romance.
Mezorial de Família, romance. Nossa Senhora de Lourdes.
Os Elegantes Doutros Tempos, colecção Pedro Corrêa.
Princípios da Filosofia Positiva, por Augusto Comte.
Escreveu também algumas peças de teatro a saber:
Dispa-se, comédia em um acto.
A Greve.
Nariz.
Vestidos Curtos.
Que Jovem Teléaaco! Psiu!, com cenas cómicas.
As referências que a imprensa local lhe fazia não eram desabonatórias no tocante ao seu comportamento ou posicionamento político. As críticas que lhe eram dirigidos advinham tão somente da discordância ideológica ou de divergências políticas.
POPPE, Augusto Carlos de Sousa Lobo: Em 1890 foi proposto pelo Governo como candidato a deputado pelo círculo 80 - Setúbal. Augusto Carlos de Sousa Lobo Poppe, engenheiro civil e governamental, advogava o programa do Governo e os consequentes benefícios que adviriam para Setúbal, se fosse eleito deputado pelo círculo. Assumia um modelo de perfectibilidade em oposição ao projecto revolucionário do candidato republicano. A visão maniqueísta transmitida pela instituição religiosa, ao longo dos séculos, foi bem aproveitada pelo candidato governamental.
Realizadas as eleições, o candidato do Governo obteve em todo o círculo 2.618 votos, contra 1.129 do candidato republicano. Verificou-se, então, uma enorme viragem no eleitorado, devido ao descontentamento de Joaquim Pedro Rasteiro, preterido pelo Governo, em favor do Eng. Augusto Poppe. Neste contexto, o candidato governamental perdeu a votação na cidade de Setúbal, em favor do candidato republicano. Enquanto o Eng. Poppe obtinha apenas 502 votos, o Dr. Eduardo Maia conseguia 956. Mesmo no concelho de Setúbal, o Dr. Eduardo Maia, com 1.077 votos, aproximou-se bastante do engenheiro Poppe, com 1.325. Mas, em Alcácer do Sal, protegido por José Maria dos Santos, o Eng. Augusto Poppe conseguiu 1266 votos, contra apenas 52 do candidato republicano.
PORTELA, Manuel Maria: Filho de Manuel Rodrigues Portela e de Doroteia Angélica Perdigão Portela, nasceu a 8 de Dezembro de 1833, na então vila de Setúbal.
Empregado da Câmara Municipal de Setúbal, com o cargo de 10 oficial, teve o cuidado de compilar os documentos que considerou importantes para a história de Setúbal.
Iniciou a sua carreira de jornalista no semanário Setubalense O Correio de Setúbal, nascido em 1860, e foi redactor de A Voz do Progresso, surgido em Janeiro de 1864. Foi também redactor do Jornal de Setúbal, desde a sua fundação em Outubro de 1866. Desde 1872 foi o redactor principal da Gazeta Setubalense.
Lutou, nas colunas do Jornal de Setúbal, pela Criação do Asilo da Infância Desvalida e foi o principal dinamizador da colocação da lápide a Bocage, na casa onde nasceu o poeta. Com Castilho, desencadeou o processo de colocação da estátua de Bocage na cidade de Setúbal, no ano de 1871.
Publicou as seguintes obras:
Ensaios Poéticos, em 1865.
Os Ecos do Ermo, em 1872.
Lírica e Lendas do Brasil, em 1884, editado no Brasil.
Na imprensa Setubalense e mesmo na imprensa nacional (ex: Diário Ilustrado), encontramos muitos dos seus versos, considerados de grande qualidade. Como exemplo poderemos ler O Génio!, que Portela dedicou a Bocage, aquando da inauguração da estátua do ilustre poeta:
"Soberba ostenta o roble, dominando
toda a floresta; a fronte altiva a erguer,
mas o tufão que o prostra espedaçando
não mais o deixa ufano ali crescer;
as nuvens a cuspir, erguida a vaga
vem ousada e potente, em seu bramir,
bate porém na aresta d'uma fraga,
e, desfeita, no mar se vai sumir;
a águia, que se arremessa a imensa altura,
a divagar no espaço na amplidão,
cansada, abate o vôo na penha dura,
e morre abandonada sobre o chão;
o raio é luz que passa e que ilumina,
espantando no brilho e rapidez,
mas logo a mão de Deus à terra o inclina,
e não torna a brilhar por outra vez.
Toda a grandeza brevemente expira,
ó do Génio a grandeza é imortal:
cale-se embora do poeta a lira,
fica da glória aceso o seu fanal;
Jamais pode apagá-lo o rijo vento,
que da matéria o pó faz dispersar;
o Gênio é mais um sol no firmamento
que eternamente lá se vê brilhar."
Manuel Maria Portela manteve contactos com António Feliciano de Castilho, Alexandre Herculano, Inocêncio, Mendes Leal, Rebelo da Silva e Pinho Leal.
São também de sua autoria:
Hino, dedicado ao Dr. José Brás de Mendonça Furtado, pela Sociedade Capricho, com música de José Luciano de Carvalho.
Impressões de um passeio à Arrábida, publicado na Gazeta Setubalense, em Julho e Agosto de 1873.
D. Gonçalo Pinheiro, bispo de Viseu, folhetim do supracitado semanário, em l e 8 de Março de 1874.
Notícias dos Monumentos Nacionais, edifícios e lugares notáveis do concelho de Setúbal, que a Câmara mandou imprimir em 1882, em resposta aos quesitos que lhe propusera a comissão dos monumentos.
Anotações ao capítulo sobre Setúbal, no Portugal Antigo e Moderno, elaboradas em 1885, mas somente publicados dez anos depois. Neste dicionário foram publicados vários artigos de Portela.
Diário Histórico Setubalense, em 1883, que saiu 32 anos mais tarde.
Prefaciou os Enigmas Poéticos, de Frei Francisco de Santo Inácio Carvalho, editado no Rio de Janeiro, em 1879.
Manuel Maria Portela faleceu no dia 28 de Fevereiro de 1906.
Nesse mesmo ano, a Câmara de Setúbal conferiu o nome de Avenida Portela à, até então, rua de S. João, onde ele residia.
RASTEIRO, Joaquim Pedro da Assunção: Filho de Joaquim Pedro de Assunção Rasteiro e de Maria Rita da Encarnação Dias Rasteiro, nasceu a 12 de Novembro de 1834, na freguesia de S. Lourenço, em Vila Nogueira de Azeitão.
Era agricultor e autodidacta. Possuidor de vinhas e de adega em Azeitão, a esta se refere a Gazeta Setubalense, no dia 3 de Janeiro de 1875, num anúncio publicitário: "Vinho a 800 réis por 17 1. Dão-se prazos para pagamento. Azeitão, adega Rasteiro."
Então, o vinho mais barato era a 800 réis cada 16.800 litros. Joaquim Rasteiro baixava o preço de venda do vinho, dominando o mercado e conseguindo maiores lucros, facto que lhe valia a inimizade dos restantes produtores vinícolas.
Em Novembro de 1877 fez parte da lista proposta pelos. Progressistas para a Câmara Municipal e de uma outra, tentativa de reconciliação entre as várias propostas, com o Dr. Garcia Peres, Venâncio Torres e Campos Rodrigues, mas não figura entre os vereadores eleitos na lista do Dr. Rodrigues Manitto.
No ano de 1879 foi eleito vereador com 2126 votos, numa Câmara bipartida, onde os Progressistas ainda detinham a maioria. A lista regeneradora, da qual fazia parte Joaquim Rasteiro, era encabeçada por António Maria Albino.
Os problemas sucederam-se e a situação financeira da Câmara agravou-se. Então, António Maria Albino, Maurício Martins de Oliveira e Joaquim Rasteiro, na sua qualidade de vereadores, convocam um comício para dar conhecimento à população dos seus actos e ouvir a opinião da assembleia, pois estavam a lutar com sérias dificuldades para continuar a administrar a autarquia. Campos Rodrigues, na Gazeta Setubalense, apelava ao espírito bairrista dos Setubalenses, ao mostrar que Joaquim Rasteiro e Maurício de Oliveira apenas se interessavam por Azeitão, que representavam, em detrimento de Setúbal.
Ainda no ano de 1881, Joaquim Rasteiro apoiou uma proposta de Campos Rodrigues, seu crítico acérrimo, que visava a criação de uma escola secundária, em substituição do Liceu Municipal.
Em 1890, Joaquim Rasteiro candidatou-se a deputado pelo círculo de Setúbal, mas retirou a candidatura por "veto governamental - poder que esmaga o mais forte, que abate o mais ousado e que não podia deixar de (reduzi-lo) ao nada de que […] procedia". Teceu críticas ao Governo e concluía: "o círculo da Setúbal, adormecido durante alguns anos, vai despertando, aguardemos que saia de todo do seu sono, reservemo-nos para depois e então daremos aos governantes uma lição que possa aproveitar-lhes". Terminava a missiva agradecendo os apoios recebidos em Azeitão, Palmela e Setúbal.
No dia 7 de Janeiro de 1894, foi eleito 20 vogal efectivo da comissão de recenseamento.
Aproximavam-se as eleições e o Governo, então regenerador, propôs Joaquim Rasteiro como candidato ao Parlamento. Era seu opositor o Progressista António José Batista, presidente da Câmara que os munícipes respeitavam.
Joaquim Rasteiro, que receava o seu opositor, moveu todas as influências para conseguir a desistência de António José Batista. O Governo ofereceu várias regalias ao candidato progressista, inclusivamente para a cidade de Setúbal, que este recusou. Então foi tornado público um manifesto, assinado por cidadãos regeneradores, apelando ao voto no seu candidato, Joaquim Pedro da Assunção Rasteiro, digno de ocupar o cargo para que o propunham. Alegavam "a sua vida passada", penhor" de uma palavra comprometida no distrito e no concelho, onde servira como vogal da comissão executiva da Junta Geral e vereador da Câmara Municipal.
Mas a oposição progressista, apoiada por alguns Republica-nos, aproveitou a ocasião para recordar episódios desagradáveis, de que foram responsáveis alguns dos cidadãos que se dirigem à população a solicitar-lhe o voto para os seus candidatos. Dirigindo-se aos eleitores de cada freguesia, de acordo com as suas necessidades e aspirações e num tom que lhes fosse caro e lhes captasse os votos, lembravam que Joaquim Rasteiro era o candidato dos Grandes e pretendia um lugar que lhe permitisse aumentar os seus proventos. Alertavam os eleitores de que a consciência dos cidadãos devia estar "acima de toda a pressão, superior a quantos sistemas de corrupção que RASTEIRAMENTE se pretendiam empregar contra a população de Setúbal.
Efectuadas as eleições, Joaquim Rasteiro venceu por 2.447 votos contra l 885 de António José Batista, que ganhara na cidade com 1.087 votos, contra 470 de Joaquim Rasteiro e 80 do Dr. Teófilo Braga. Mesmo no concelho, A. J. Batista vencera com 1.735 votos, contra 1.599 de Joaquim Rasteiro e 84 do Dr. Teófilo Braga. Foi o habitual caciquismo de José Maria dos Santos que, fraudulentamente, lhe deu a vitória.
Nestas eleições, Joaquim Rasteiro teve o apoio de Campos Rodrigues, até então acérrimo defensor de António José Batista.
Após ser eleito deputado, Joaquim Rasteiro publicou na Gazeta Setubalense um documento, no qual fazia uma retrospectiva da sua vida, que considerava de "modesto aldeão". Recorda que, "em 1865, o sufrágio popular" lhe dera, pela primeira vez, assento no Município de Setúbal. Em 1881, tomou lugar na Junta Geral do Distrito de Lisboa, ande permaneceu até 1885, data em que decidiu "recolher-se ao lar". Ao reaparecer, fê-lo por "pressão de alguns amigos", que decidiram "trazê-lo de novo às lides políticas", desafio que aceitara, esperando cumprir cabalmente a sua missão.
Num panfleto distribuído em Dezembro de 1894, os Republicanos acusaram o deputado Joaquim Rasteiro de ser inimigo da cidade e "amigo carnal do Benquisto Maurício".
Mas a sua vida política havia chegado ao fim.
Produziu alguns escritos de que salientaremos:
Os esgotos de Setúbal, opúsculo.
Ao público imparcial e desejoso da moralidade da administração, opúsculo escrito em 1881 sobre assuntos pedagógicos, com a colaboração de Maurício Carlos Martins de Oliveira, seu conterrâneo. Neste escrito acusava Campos Rodrigues , empresário do Liceu Municipal", uma vez que o custo per capita, no liceu de Setúbal, era muito superior ao da Escola Secundária de Azeitão.
Escreveu ainda sobre os "solares e solaremos" de Azeitão, e publicou vários artigos no Jornal do Comércio na Ilustração Portuguesa (a quinta da Bacalhoa), na Revista Ilustrada (a Ermida das Necessidades ou Portela das Vendas) e no Economista.
Num folheto editado em 1896, alusivo à Serra da Arrábida encontramos um extenso artigo de Joaquim Rasteiro (26 p.) que fala da serra, da lenda, do mosteiro de Frei Agostinho da Cruz e das matas da região. Neste opúsculo colaboraram também Ana de Castro Osório, Paulino de Oliveira, Manuel Maria Portela, e Arronches Junqueiro, entre outros.
Escreveu para o boletim da sociedade de Geografia, alguns artigos sobre a evolução do território que forma a península de entre o Tejo e o Sado.
Publicou no Arqueólogo a resposta a um questionário da Comissão dos Monumentos nacionais, que abrangia os edifícios, inscrições, etc., que existem neste mesmo território".
Das suas obras é de salientar o "texto e atlas sobre os Inícios da Renascença em Portugal - Quinta e Palácio da Bacalhoa em Azeitão". O Atlas só foi editado depois da sua morte, pela Comissão dos Monumentos Nacionais, de que fazia parte Joaquim Rasteiro.
Deixou quase completo um livro intitulado O Paço dos Aveiros, nas suas relações com a história, do qual faz parte uma série de artigos que publicara no Jornal do Comércio.
Enquanto ligado às lides políticas, conseguiu a reconstrução do Hospital e Capela da Misericórdia de Azeitão, assim como a construção da rede rodoviária que liga Azeitão a Setúbal, a Sesimbra, a Palmela e ao Barreiro.
Faleceu no dia 26 de Novembro de 1898.
RODRIGUES, António Maria de Campos: Filho de Gregório Manuel Rodrigues e de Francisco Xavier de Campos Rodrigues, nasceu em Lisboa, na freguesia dos Anjos, no dia 20 de Junho de 1832. Foi professor e jornalista.
Exerceu a docência no Liceu Municipal de Setúbal, desde 1858/59.
No dia 27 de Novembro de 1881, António José Batista Hentze, "empresário" (ou director) do Liceu Municipal, renunciou aos seus direitos naquele estabelecimento de ensino em favor de Campos Rodrigues.
Após serem dirimidas algumas divergências entre ele e a Câmara Municipal, assumiu definitivamente o cargo de director no ano de 1870, após saída do Prof. António Pereira da Silva. Manteve-se no cargo até 1901, ano em que aquela escola se transformou em Liceu Nacional de Setúbal. Assim passou a ser considerado como professor adido, mas no serviço efectivo até 1915.
Campos Rodrigues distribuiu o seu tempo pelas actividades pedagógicas e pelas actividades jornalísticas, durante cerca de 50 anos.
Colaborou em diversos periódicos locais, antes de lhe confiarem o posto de redactor principal da Gazeta Setubalense, donde saiu para, no dia 3 de Outubro de 1886, fundar O Distrito.
No ano de 1873, ao serem realizadas eleições para a vereação do Município, encabeçou uma proposta de lista, na qual entravam, entre outros, Manuel Ventura Corrêa e José Joaquim Corrêa. No entanto, a lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto venceu novamente.
Em Julho de 1873 foi eleito Provedor da Santa Casa da Misericórdia, sem ser Irmão, após grande instabilidade, com apenas 29 votos. Em 1878, terminado o acto eleitoral, obteve 49 votos, exaequo com o Regenerador Padre Francisco Lino da Silva. Foi escolhido pela Mesa ao abrigo do artigo 740 dos Estatutos ou Compromisso. Votaram então 103 Irmãos.
Em Novembro de 1877 surgiram manifestos contra a vereação, especialmente contra o seu presidente, Rodrigues Manitto.
Então os Progressistas propuseram um novo elenco para a Câmara, no qual incluíram Campos Rodrigues.
Numa outra lista, que nos parece uma tentativa de reconciliação entre várias, voltamos a encontrar o nome de Campos Rodrigues em segundo lugar, depois do nome do Dr. Domingos Garcia Peres.
O Diário Popular, de 24 de Novembro de 1877, publicou uma notícia sobre as eleições em Setúbal, assinada por "um eleitor", que criticava a actuação do presidente da Câmara e o aterro que ele iniciou, assim como o ter-se aliado ao "seu professor do liceu municipal", António Maria de Campos Rodrigues, que acusava de oportunismo, por se ter feito eleger como Provedor da Misericórdia, sem ser Irmão, facto que levou a Mesa da dita instituição a não elegê-lo de novo. Foi realmente Provedor durante os mandatos de 1873/1874 e 1878/1879, não voltando a ser reeleito. Este professor era ainda acusado, pelo referido eleitor, de "mandar logo vir engenheiros para fazer novo plano para outro hospital, porque o que existia era "mais velho que o Snr. professor".
Em 1877 Campos Rodrigues foi eleito vereador, tendo sido proposto pelo Dr. Rodrigues Manitto.
No dia 9 de Julho de 1879, concorreu de novo a Provedor da Santa Casa da Misericórdia, contra António Joaquim Corrêa, mas foi vencido, tendo obtido 60 votos, contra 88 do vencedor.
O Correio do Sado publicou, entre Fevereiro e Março de 1880, uma série de artigos de ataque à administração da Santa Casa da Misericórdia de 1873/74 e de 1878/79, quando era Provedor Campos Rodrigues. Este, ao responder, não poupou António Joaquim Corrêa, que lhe ganhara a provedoria em 1879.
Campos Rodrigues abriu guerra cerrada contra os Corrêa, facto de que veio a sofrer as consequências pouco tempo depois.
Ainda em 1880, na Gazeta de Setúbal, insurgisse contra a direcção do Asilo da Infância Desvalida, cujo presidente era o Dr. Domingos Garcia Peres. A admissão de "Irmãs Hospitaleiras" para a supervisão daquela instituição de caridade foi o principal alvo das suas críticas porque considerava errada a pedagogia seguida por elas, ao orientarem a formação das asiladas para a profissão de criadas de servir", em vez de as prepararem para donas de casa do "homem do povo".
Embora pretenda mostrar-se transmissor de ideias inovadoras, continua arraigado aos princípios conservadores, à manutenção de uma sociedade bipartida e sectária.
Em 1880, fez parte da Comissão incumbida de elaborar uma lista de necessidades mais prementes, a entregar ao Dr. Vicente Monteiro, governador civil substituto, que visitou Setúbal, no dia 5 de Novembro.
Quando, no início de 1881, um grupo de reaccionários tentaram fundar a Associação Protectora dos Operários, de inspiração jesuítica, Campos Rodrigues aliou-se aos restantes democratas Setubalenses, esquecendo velhas querelas.
Neste mesmo ano fez a sugestão de que se solicitasse ao Governo a criação de uma escola secundária, em substituição do liceu municipal; a proposta, apoiada por Manuel José de Araújo e por Joaquim Rasteiro, foi aprovada por unanimidade.
Também na escola, a polémica entre Progressistas e Regeneradores, continuava acesa, pois Campos Rodrigues, director do liceu e progressista, recusou a admissão de António Ribeiro Coelho, regenerador e redactor do Correio do Sado. Fez da Gazeta Setubalense o transmissor dos seus ódios pessoais e políticos, enquanto o seu oponente aproveitou o Correio do Sado para retribuir os insultos. A guerra jornalística, e obviamente política e pessoal, atingiu tais proporções que terminou com o afastamento de Campos Rodrigues da redacção da Gazeta Setubalense e o final de publicação do Correio do Sado.
Campos Rodrigues afirmava-se como democrata e atribuía os sucessos eleitorais do Partido Regenerador ao facto de ele se ter apoiado na corrupção, ao contrário do Partido Progressista, que sempre se recusara a aderir a tais métodos, e não "comprou a imprensa", voltando-se esta contra si. Campos Rodrigues considerava que teria sido uma medida acertada da parte dos Republicanos se, sem subserviência, tivessem apoiado os Progressistas. No entanto, vai apoiar o candidato regenerador nas eleições de 1881.
Campos Rodrigues redobrou os ataques aos Regeneradores que estavam no Governo e na administração da Santa Casa da Misericórdia, mas retrocedeu ao perceber que a sua carreira profissional começava a ser ameaçada. A partir de então dirigia-se ao Provedor com afabilidade, tratando-o por "reverendo Provedor", mas tarde de mais.
Joaquim José Corrêa, enquanto vereador da Câmara Municipal, desencadeou o processo que visava o encerramento do Liceu.
Campos Rodrigues contra-atacou com o facto de o ter apanhado a negociar com a Misericórdia, quando ele era seu Escrivão e vendedor da água que a cidade consumia.
No início de 1884, Campos Rodrigues comentava a nova Câmara, concluindo que Manuel José de Araújo fora o único que assumira a defesa dos interesses da cidade, contra os vereadores "suburbanos".
Em 1885 manteve-se a constituição da Câmara, mas Campos Rodrigues lamentava algumas críticas que se via obrigado a fazer, uma vez que elas se colocavam em relação a "amigos pessoais".
No ano de 1886, integrou a Assembleia Eleitoral de S. Sebastião e Santa Maria da Graça.
Em Novembro de 1886, quando se disputavam as eleições para a Câmara e para procurador à Junta Geral do Distrito, A Semana de Setúbal, de 14 de Novembro de 1886, teceu acerca de Campos Rodrigues as seguintes considerações: "estranha-se que o Snr. Campos Rodrigues, sábio pedagogo e director do Distrito, trabalhe afincadamente pelo façanhudo Regenerador José Maria dos Santos, sendo o director interino do chamado Liceu tão esturrado progressista.
Este jornalista é muito feliz - ainda não conseguiu ser bem conhecido em Setúbal onde vive há tantos anos, no que lucra muitíssimo.
Pois não é nada para admirar mais esta evolução do Snr. Campos Rodrigues. Não há política menos coerente. Não há jornalista mais moralista e menos coerente!"
No dia 6 de Novembro de 1892, realizaram-se eleições para a Câmara Municipal.
A comissão composta por delegados das Comissões Paroquiais, indicou alguns nomes, entre os quais o de António Maria de Campos Rodrigues, que não aparece entre os eleitos.
Em Março de 1893, teve lugar a inauguração do novo edifício do Hospital da Misericórdia, a que assistiu quase toda a imprensa Setubalense. Campos Rodrigues, director de O Distrito, revelou, na notícia que publicou no seu semanário, a existência de certa animosidade para com a administração da Santa Casa da Misericórdia, o que nos não admira, uma vez que era Provedor António Joaquim Corrêa, com quem se digladiara (tal como com. outros membros da família Corrêa), através da Gazeta Setubalense, quando disputava com ele o cargo de Provedor.
Nos finais de 1893, uma enorme crise afectou a cidade de Setúbal. Acerca dela e do modo como resolver o problema dividem-se as opiniões.
O Distrito, cujo director e editor era o Progressista António Maria de campos Rodrigues, acusou os industriais de não terem sabido conquistar o mercado europeu, criando marcas com aceitação, e considera irrisórias as propostas feitas pela comissão, exceptuando a que se referia à possibilidade dos galeões pescarem na Costa da Caparica. Campos Rodrigues insurgiu-se contra os soldadores, que apelidou de perigosos Anarquistas porque na sua escola se ministravam as "perversas doutrinas". Considerava que a intromissão da Câmara fora inoportuna.
Na luta acérrima entre Regeneradores e Progressistas de Setúbal, Campos Rodrigues marcou sempre presença embora nem sempre com coerência. Quando esteve em causa o seu correligionário António José Batista, 'a sua posição mudou algumas vezes, facto que lhe mereceu críticas dos outros jornalistas. Assim, no dia 28 de Janeiro de 1894, publicou uma declaração de António José Batista, mas não se coibiu de criticar o modo como o candidato conduziu o processo eleitoral. As divergências entre Campos Rodrigues e António José Batista começaram a avolumar-se e, com elas, a guerra jornalística a que, desde então, assistimos.
Algumas atitudes tomadas por António José Batista provocaram reacções negativas da parte dos Progressistas, e Campos Rodrigues foi o primeiro a expressar o seu descontentamento em O Distrito de 28 de Janeiro, numa notícia intitulada "Movimento Eleitoral". Nela elogia José Maria dos Santos, que sempre considerara inimigo de Setúbal, mistura ataques aos seus colegas de O Elmano com referências a hipotéticas contradições da parte dos Republicanos, que ainda se debatiam com a dúvida de apresentarem ou não um candidato próprio às eleições que se aproximavam.
No dia 13 de Abril, a Gazeta Popular voltou a referir Setúbal, dedicando-lhe toda a primeira folha. São duas páginas de apologia a António José Batista e de crítica cerrada a Campos Rodrigues, director de O Distrito, porque escrevia, ou permitia que escrevessem,, contra o seu correligionário António José Batista, e a favor do seu sempre opositor Joaquim Rasteiro. Recordava, ainda, todas as vezes que Campos Rodrigues elogiava António José Batista, e lamentava que aquele jornalista tivesse uma tão curta memória.
Terminadas as eleições, toda a imprensa teceu comentários acerca das incorrecções cometidas, mas O Distrito de António Maria de Campos Rodrigues não fez qualquer referência ao modo como decorrera o acto eleitoral; apenas se limitou a tecer elogios ao administrador do concelho, Simões da Cunha, pelo modo como conduziu a segurança no decurso das eleições. Publicou também um comunicado Ao Círculo de Setúbal, no qual o novo deputado agradecia aos eleitores os votos que lhe tinham dado a vitória, aproveitando para fazer algumas insinuações pouco agradáveis ao comportamento de António José Batista.
Na sequência de toda esta polémica, a Vanguarda criticou a actuação pouco transparente de Campos Rodrigues, "um velho dementado, um perfeito catavento político. Este indivíduo que já defendeu a candidatura do Snr. Batista e que já a atacou, torna agora a defendê-lo. Isto no curtíssimo prazo de dois anos, se tanto. Além disso o Snr. Campos Rodrigues deseja ser nomeado director efectivo duma escola que rege interinamente há 24 anos."
As mudanças e incoerências verificados ao longo do percurso político e jornalístico de Campos Rodrigues são inaereditáveis, pois não podemos esquecer a coragem que ele demonstrara ao assumir, na Gazeta Setubalense, posições que lhe valeram duras represálias dos Regeneradores.
Quando, nos finais de 1894, a crise económica arrastou para a miséria muitos trabalhadores, Campos Rodrigues, então presidente da coligação dos jornalistas Setubalenses, participou na comissão incumbida de solucionar o problema.
Em 1898-99, integrou, a convite do presidente da Câmara, António José Batista, uma comissão incumbida de elaborar um relatório sobre o concelho de Setúbal, suas realidades e necessidades, a enviar ao Ministro das Obras Públicas.
Campos Rodrigues era irmão do almirante Augusto César de Campos Rodrigues.
Morreu no dia 8 de Junho de 1915, com 83 anos. O corpo foi transportado pelos Bombeiros Voluntários. Teve guarda de honra, pelo piquete comandado pelo 10 patrão Júlio Tomás de Mendonça. Estiveram presentes no funeral professores e alunos do Liceu e do ensino particular, assim como a imprensa.
Se quisermos situar ideologicamente o homem cujo esboço de biografia acabamos de traçar, basta que extraiamos, dos princípios por ele definidos ao iniciar a publicação do semanário O Distrito, os passos que definem as linhas de força do seu pensamento": Eis-nos dispostos a uma cruzada santa, patriótica, humanitária, para a qual, em verdade, contamos vencer a indiferença dos governos […] O nosso jornal conta com uma grande força, uma grande política, uma grande religião que se compreendem no vasto ideal da palavra verdade! […]".
RODRIGUES, Malaquias Eugénio: Foi eleito vereador substituto da Câmara Municipal de Setúbal, com 925 votos, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto, no ano de 1878.
SALVADOR, Francisco: Alcançou o cargo de vereador substituto da Câmara Municipal de Setúbal, com 841 votos, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto, no ano de 1878.
Em 1881 fez parte de uma das listas candidato à Câmara Municipal, como último suplente.
Em 1885 concorreu ao lugar de vereador substituto, por Palmela, e obteve 608 votos.
SANTOS, José Maria dos: José Maria dos Santos, "opulento lavrador", era dono da herdade de Palma, em Alcácer do Sal, e de uma outra no Poceirão, que integrava "a exploração vitícola de maior extensão em todo o mundo. Ocupava uma superfície de 2.400 hectares, continha 6.000.000 de cepas e produzia 20.000 pipas de vinho".
A herdade de Palma fica situada na freguesia de S. João Batista de Palma, a 17 km a noroeste de Alcácer do Sal, na margem direita da ribeira de S. Martinho, sendo servida pela ponte que atravessa a referida ribeira. A importância da freguesia devia-se à imponência do palácio da herdade, do antigo condado de Palma nela integrado conjuntamente com o de Sabugal, depois do casamento do 20 Conde de Óbidos.
O rei D. Carlos foi várias vezes caçar javalis na herdade de Palma, ficando hospedado no referido palácio, próximo da Igreja Paroquial.
Em 1907, o Club Tiro-Tauro Setubalense organizou uma caçada nos vastos montados da herdade, tendo os caçadores representado, num barracão improvisado, uma revista sob o título Na caça da caça, que ficou célebre na história de Setúbal.
Em Outubro de 1885, José Maria dos Santos foi eleito Procurador à Junta Geral do Distrito, com 1.019 votos, sendo seu substituto Venâncio Olímpio Ferreira Torres, que obteve 995 votos.
No dia 14 de Novembro de 1886 recandidatou-se ao cargo de procurador à Junta Geral do Distrito, com o apoio dos Progressistas, e venceu, tendo obtido 1386 votos o Dr. Manuel Francisco da Paula Barreto, dito independente, mas inclinado para as ideias republicanas.
O manifesto eleitoral do grupo independente associado aos Republicanos atacava os Regeneradores porque, segundo dizia, actuavam sob a protecção do "rico e egoísta proprietário de Alcácer do Sal" José Maria dos Santos.
Terminadas as eleições, o Semana Setubalense, ao analisar todo o processo, constatava que apenas o caciquismo verificado em Palmela, sob a influência do proprietário alcaçarino, lhe proporcionou a vitória, uma vez que o Dr. Paula Barreto vencera em Setúbal. Atribuía, pois, a vitória dos conservadores ao baixo nível cultural dos lavradores de Palmela, na sua quase totalidade analfabetos.
Ao analisar o curriculum político de José Maria dos Santos, regenerador de longa data, interrogava-se sobre a lógica de um governo progressista apoiar um inimigo político que sempre fez guerra aos candidatos seus correligionários, no círculo de Setúbal, em vez de propor para a Junta Geral um Progressista ou, na sua falta, um independente. Aliás, o próprio Diário Ilustrado, ao anunciar os resultados da eleição, apresentava "o Snr. Santos" como regenerador e contava a eleição dele no número das vencidas pela oposição. E o articulista concluía sarcasticamente: "Ora, no meio desta embrulhada poderá saber-se o partido em que o Ex-o Snr. José Maria dos Santos está filiado?
[…] Se o credo do Snr. Santos pode pôr-se em dúvida o que é certo é que ele ainda não apostatou publicamente a sua religião política e que se dirigia aos eleitores dizendo-lhes: Que à falta de homens o Governo o convidara para aceitar a eleição de procurador à Junta Geral por Setúbal."
E, para mostrar a versatilidade política de José Maria dos Santos, cujas ideias se moviam com base nos seus interesses pessoais, acrescentava ao comentário uma nota intencionalmente provocatória: "Resta-nos agora ver o Snr. Santos, na próxima eleição para deputados, ordenando a Palmela que eleja um Progressista, e a eleição ser patrocinada pelo Governo e apoiada pela autoridade" .
No dia 20 de Março de 1890 realizaram-se novas eleições, às quais concorreram dois candidatos: um monárquico, o Eng. Augusto Carlos de Sousa Lobo Poppe, apoiado por Regeneradores e Progressistas; outro, Republicano, o Dr. Eduardo Maia. O candidato republicano obteve uma vitória estrondosa na cidade de Setúbal, sendo vencido no concelho por apenas 275 votos, mas viu consolidada a sua derrota em Alcácer, graças ao caciquismo e fraude urdida por José Maria dos Santos que manteve as assembleias de voto vigiadas pelas autoridades. Os trabalhadores receavam as represálias do dono da herdade de Palma, pelo que, em Alcácer, o Eng. Poppe obteve 1.266 votos, contra apenas 52 do candidato republicano.
No dia 14 de Agosto encontra-se registado, em acta de reunião da Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal, um agradecimento pela colaboração de José Maria dos Santos e também de Joaquim Tomás da Costa e Joaquim Mendes Núncio (este ofereceu ao hospital a quantia de 9.000 réis, que lhe era devida pela sua actuação), de Alcácer do Sal, que haviam apoiado a corrida de touros que se realizara em benefício do hospital, e rendeu 486 000 réis.
Nas eleições de 1892, os acontecimentos fraudulentos repetiram-se em Alcácer do Sal, quando António José Batista concorreu contra Jaime Artur da Costa Pinto, que era apoiado pelo Governo.
Realizadas as eleições, António José Batista venceu no concelho de Setúbal por 681 votos, tendo ganho na cidade por 845, mas veio a perder o círculo, em consequência da votação de Alcácer do Sal, feudo de José Maria dos Santos, onde o candidato governamental conseguiu 1055 votos, contra 126 de António José Batista e 6 de Pinheiro Chagas.
O resultado, assim como todo o processo eleitoral do círculo, foi amplamente contestado, uma vez que o presidente da Mesa Eleitoral de Alcácer do Sal foi substituído por um homem da confiança do administrador do concelho, e colocados, por detrás da mesa de voto, dois homens com um saco de boletins com o nome de Jaime Artur da Costa Pinto, que entregavam a todos os eleitores, no momento da votação. Estes eram obrigados a introduzir o boletim na urna ou a trocá-lo na presença da Mesa, o que poucos tinham a coragem de fazer. Mas, como se isto não bastasse, fora feita, na véspera, uma urna com fundo facilmente violável, que ficou, durante a noite, fechada numa casa junto à Igreja, contendo os votos do dia anterior.
António José Batista denunciou o facto junto do próprio Rei, assim como a permanência de dois homens (um dos quais vogal da Mesa) escondidos na Igreja, durante a noite, para poderem trocar os votos já introduzidos na urna. O Rei prometeu fazer justiça e, para tal, remeteu o caso ao Ministro do Reino, que não tomou quaisquer providências. No dia seguinte, pelas dez horas da manhã, as autoridades prenderam os dois indivíduos escondidos na Igreja desde a véspera, mas a burla já estava consumada e o administrador do concelho, longe de remeter os prevaricadores ao tribunal, mandou-os para casa, sem nenhuma admoestação.
Em 1894, quando António José Batista concorre contra Joaquim Rasteiro, os factos foram denunciados na imprensa, mas em Alcácer a fraude voltou a repetir-se.
Em reunião da Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal, no dia 11 de Novembro de 1903, foi aprovada a proposta de colocação do retrato de José Maria dos Santos, como benfeitor da instituição.
Em acta da reunião da Mesa da Misericórdia, datada de 12 de Setembro de 1905, encontramos registado que o Provedor, após fazer o ponto da situação financeira, que considerava calamitosa, decidiu pedir auxílio ao Conselheiro José Maria dos Santos, entre outros, uma vez que já tinham recebido trabalhadores das suas propriedades para se tratarem no Hospital da Santa Casa.
Desde então a actividade política deste rico proprietário enfraqueceu, pois a idade, já avançada. tolhia-lhe os movimentos.
SILVA, Aníbal Alvares da: Filho de Vitorino Alvares da Silva e de Justina Alvares da Silva, nasceu no dia 29 de Maio de 1819, na ilha da Madeira.
Veio para Setúbal onde se estabeleceu como advogado e casou com Maria João Leite Alvares da Silva. Desde logo se começou a interessar pela política.
Quando presidente da Câmara, conseguiu a cedência do ex-convento da Boa Hora, ou dos Grilos, para nele ser instalado o Liceu Municipal, inaugurado a 2 de Agosto de 1858, embora o decreto que autorizou o seu funcionamento apenas fosse assinado no dia 17 de Janeiro de 1859. Mandou construir a capela do cemitério cuja 1ª pedra foi lançada a 22 de Maio de 1859. Conseguiu que Setúbal tivesse a categoria de cidade (decreto de 19 de Abril de 1860) e envidou todos os esforços para que se construísse o prolongamento da linha férrea do Barreiro; no entanto, só foi construído o ramal que liga o Pinhal Novo à cidade de Setúbal.
No ano de 1860 concorreu a deputado, pelo circulo de Setúbal, contra o Dr. Domingos Garcia Peres. Ganhou na cidade, mas perdeu o círculo, por causa dos resultados de Palmela, que considerou fraudulentos.
Durante a campanha eleitoral, os apoiantes do Dr. Aníbal Silva desencadearam ataque cerrado ao seu opositor e aproveitaram para enaltecer os dotes oratórias do candidato liberal, como podemos comprovar através de panfletos distribuídos à população. Neles, os seus -correligionários lembram aos Setubalenses que, se querem um deputado, português e para falar, no Aníbal vão votar […]"
Por seu turno, os apoiantes do Dr. Garcia Peres insinuavam que o Dr. Aníbal Alvares cometera fraudes e fugira para Cádis, acusações a que este não respondeu.
O Dr. Aníbal Silva era então presidente do Município de Setúbal, e via-se acusado pelos seus oponentes de apenas pensar no aterro junto ao rio, a fim de construir uma nova muralha e acabar com as águas estagnadas naquele local, obra com a qual os conservadores não concordavam. O povo da cidade não era da mesma opinião, uma vez que deu a vitória ao seu presidente da Câmara.
No dia 19 de Abril de 1860, assinou, na qualidade de presidente da edilidade (enquanto o Dr. Garcia Peres o fazia como deputado) o decreto que elevou Setúbal a cidade.
Entretanto, em Junho de 1860, no Governo, o Partido Regenerador foi substituído pelo Partido Histórico, que dissolveu o Parlamento e convocou novas eleições. Pelo círculo de Setúbal concorreram Aníbal Alvares da Silva e António Maria de Fontes Pereira de Mello. Este concorrente, nos folhetos que mandou distribuir na cidade <42), acusava o Dr. Aníbal de corrupção, de homem ligado aos "Pedreiros Livres" e vendido "a um Governo mau".
Terminado o escrutínio, verificou-se que a esmagadora maioria dos eleitores tinham dado o seu voto ao candidato do Governo, Aníbal Alvares da Silva, presidente do Município. O então já deputado agradeceu aos eleitores a vitória que lhe haviam proporcionado e congratulou-se com a condenação das "injúrias e calúnias" de que fora vítima. A culminar os festejos, foi distribuída uma folha volante com poesias apologéticas, dirigidos ao Dr. Aníbal Alvares.
m 1863, enquanto deputado, apresentou à Câmara um projecto de lei tendente a regularizar o transporte do sal desde as marinhas produtoras, sitas nas margens do Sado, até às embarcações.
Em 1864 o Dr. Aníbal Silva voltou a ser eleito, apesar - são palavras suas das "aldrabices cometidas em Azeitão".
No ano de 1865, com o processo fusionista, realizaram-se novas eleições, às quais concorreram Aníbal Alvares da Silva, novamente proposto pelo Governo e Domingos Dias Pereira, candidato oposicionista, que se intitulava de independente.
Após ter sido eleito, o Dr. Aníbal Silva, em comunicado de agradecimento pelos votos que lhe haviam dado a vitória, aproveitou para fazer humor com o facto de Domingos Dias Pereira não conseguir ganhar, embora fizesse promessas a Deus e aos eleitores.
No ano de 1868, aquando da campanha eleitoral, apareceu um documento manuscrito que acusava o administrador do Concelho, Germano Augusto da Silva Pedrosa, de se ter vendido ao Dr. Aníbal, novamente candidato à presidência da Câmara e a deputado. Culpava o então deputado e presidente da Câmara de caciquismo e de corrupção e apelava ao eleitorado para que se não deixasse influenciar pelas manobras pouco claras do "pai do piolho," como então lhe chamavam os seus opositores. Denunciava ainda atitudes pouco correctas na manutenção da ordem, "pois o Snr. Pedrosa, para não desagradar a alguns apoiantes do Dr. Aníbal, em vez de prender os desordeiros, decretou o recolher obrigatório nas noites que antecederam as eleições".
Nas eleições para a Câmara Municipal venceu de novo Domingos Dias Pereira, que ficou como vice-presidente.
No dia 22 de Março voltou a ser eleito deputado, como candidato do Governo, mas apenas com 876 votos, contra 710 de António Mendes de Almeida, sem conotação política; ambos eram bacharéis em direito.
Nas eleições de 11 de Abril de 1869, Aníbal Alvares da Silva declarou que se não recandidataria por não concordar com a política de reacção anti-liberal que o Governo fusionista adoptara e que ele considerava catastrófica.
No dia 4 de Agosto de 1878, foi eleito por Setúbal, como substituto do procurador à Junta Geral do Distrito, António Maria B. Arrobas, com 1702 votos.
Com a subida do Partido Regenerador ao poder, foi exonerado do cargo de administrador do Concelho de Cascais, facto considerado como vingança do Conselheiro Arrobas.
Morreu em Lisboa, a 8 de Dezembro de 1908.
SILVA, Padre Francisco Lino da: Era Prior da Freguesia de S. Julião e membro do Partido Regenerador de Setúbal.
Em 1877 a Assembleia Eleitoral da Santa Casa da Misericórdia reuniu, tendo votado apenas vinte Irmãos, que elegeram o Rv. Pe. Francisco Lino da Silva como Provedor.
No ano de 1879, António Joaquim Corrêa conseguiu, com o Padre de S. Julião, dominar a Misericórdia de Setúbal. Durante o seu mandato, os Corrêa deram origem a alguns escândalos, denunciados na imprensa local. Entre outros, salientaremos o que "mais tinta fez correr": o fornecimento de vinho, "que de vinho nada tinha", ao Hospital da Misericórdia.
No ano de 1881, foi novamente eleito Provedor da Misericórdia e esteve envolvido em problemas internos. Como exemplo da degradação moral que se verificava na Santa Casa, Campos Rodrigues recordou o caso do cadáver de uma criança, transportado ao cemitério numa alcofa, e "o desleixo" reinante no serviço daquela Casa, que deixou de ser Santa, para mais parecer lupanar". A culpa de tal situação devia-se, no entender do jornalista, aos Provedores Padre Lino da Silva e António Joaquim Corrêa, que ocupavam aquele cargo por interesse próprio: o primeiro para receber honras, e o segundo para fazer negócios. Campos Rodrigues, ao referir-se à oposição, fala do grupo "Linos e Quejandos".
Em Julho de 1882, o padre Lino da Silva foi eleito Provedor com apenas 18 votos, numa segunda assembleia reunida para o efeito. Na primeira fora eleito o Dr. Garcia Peres, que não aceitou desempenhar o cargo.
No dia 29 de Julho de 1889, sendo Provedor António Joaquim Corrêa, foi lavrada em acta a aprovação da proposta de reformar o Compromisso, uma vez que o seu articulado se encontrava ultrapassado nalguns pontos.
A 23 de Agosto de 1889, numa reunião de responsáveis, foi formada, com a incumbência de rever e reformular a redacção do referido documento, uma comissão constituída pelo Provedor, pelo Escrivão, mais quatro Irmãos e o Prior Francisco Lino da Silva.
O Compromisso ou Estatutos remodelados foram aprovados pela Mesa e Conselheiros, no dia 21 de Fevereiro de 1890, pela Assembleia Geral, no dia 10 de Março de 1890 e, finalmente apresentados ao Governador Civil de Lisboa.
SILVA, Joaquim Nunes da: Em 1878 foi eleito vereador com 1318 votos, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto.
No ano de 1880 foi um dos quatro vereadores sorteados para permanecerem na vereação; mantiveram, assim, a maioria progressista na Câmara de Setúbal.
Neste mesmo ano de 1880 fez parte da Comissão nomeada pelo governador do concelho Dr. Vilaça, para proceder ao levantamento das necessidades do concelho, apresentadas ao Dr. Vicente Monteiro, Governador Civil substituto do Distrito de Lisboa.
No ano de 1881, fazendo parte da lista candidato à vereação da Câmara, foi eleito com 648 votos.
SILVA, José António Januário da: Filho do piloto da barra de Setúbal, José Bernardo da Silva, e de Maria José Soares, nasceu na freguesia da Anunciada, a 31 de Maio de 1847.
Rico proprietário, José António Januário da Silva foi eleito, pela primeira vez, Conselheiro da Misericórdia de Setúbal, com 39 votos, a 2 de Julho de 1870; no dia g de Julho de 1871 venceu de novo as eleições com 50 votos; e a 9 de Julho de 1872, a sua reeleição processou-se com apenas 16 votos (o Provedor tivera 17). No dia g de Julho de 1873, as eleições foram muito agitadas; José António Januário da Silva não concorreu ao cargo de Conselheiro, mas ao de Provedor, obtendo apenas um voto (ao que parece, o seu próprio). O Provedor Manuel Ventura Corrêa e o Escrivão, eleitos com apenas 27 votos, pediram escusa, pelo que, no dia 13 de Julho, foram repetidas as eleições. Foi eleito António Maria de Campos Rodrigues (não era Irmão) com apenas 13 votos; José António Januário da Silva não se candidatou. No dia g de Julho de 1874 foi eleito Companheiro do Escrivão com 39 votos. A g de Julho de 1875 conseguiu ocupar o cargo de Escrivão com 30 votos (os mesmos do Provedor António Joaquim Corrêa), embora concorrendo em oposição à lista do Provedor eleito.
Com o dealbar de 1876 os problemas aumentaram na Misericórdia, dando origem a um clima muito tenso; nas eleições de Julho apenas votaram 15 Irmãos; o nome de Januário da Silva não apareceu, nem na primeira votação (dia g de Julho), nem na segunda, realizada no dia 15 do mesmo mês, após pedido de demissão da Mesa.
No ano de 1887, no qual apenas votaram 20 Irmãos, o seu nome também não foi aflorado para o desempenho de qualquer cargo de responsabilidade. No dia g de Julho de 1878, em que votaram 103 Irmãos (em 2& convocatória), Januário da Silva foi eleito Escrivão com 54 votos, tendo sido derrotado Joaquim José Corrêa, que apenas conseguiu 48 votos.
Foi eleito vereador substituto à Câmara Municipal de Setúbal com 1318 votos, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto, no ano de 1878.
No dia g de Julho de 1879 (2ª convocatória), tendo votado 149 Irmãos, foi eleito Escrivão da Santa Casa da Misericórdia com 63 votos.
Em 1880, as eleições para a administração da Santa Casa foram novamente perturbadas por convulsões internas e, mesmo em 2ª convocatória, apenas votaram 43 Irmãos; o nome de Januário da Silva não apareceu ligado a nenhum dos cargos daquela casa.
Entretanto, ao principiar 1881, integrou o elenco progressista na vereação da Câmara.
Na Misericórdia os problemas internos agudizavam-se; os Irmãos não apareceram para votar e, em 2ª convocatória, apenas 44 expressaram a sua vontade; os eleitos pediram escusa pouco tempo depois, acabando o Provedor por ser eleito com apenas 12 votos, no dia 17 de Julho; o nome de Januário da Silva não foi mais uma vez considerado. Em 1882, os problemas continuavam, e Januário da Silva, que se candidatara ao cargo de Escrivão, apenas obteve 3 votos, contra os 33 do eleito, Joaquim José Corrêa. Compareceram ao acto, em 2ª convocatória, 36 Irmãos. Por escusa do Provedor e de outros elementos escolhidos, houve novas eleições no dia 16 de Julho; apenas votaram 23 Irmãos; Januário da Silva obteve 3 votos para o cargo de Provedor, contra 18 do eleito, padre Francisco Lino da Silva, correligionário dos Corrêa. Em 1883, conseguiu 31 votos para o cargo de Provedor, contra 41 de António Maria Albino, que recusou o cargo; em 2a votação, realizada a 15 de Julho, na qual votaram 94 Irmãos, alcançou 40 votos, contra 53 do vencedor, José Gonçalves da Cunha.
Neste mesmo ano de 1883 foi eleito vereador à Câmara de Setúbal, em lista progressista.
Ao ser decidida a composição da Câmara, José António Januário da Silva foi ultrapassado por José António Fernandes, que obteve mais votos por Azeitão.
No ano de 1884 (sempre em 2- convocatória, tendo votado apenas 28 Irmãos) obteve apenas um voto para o cargo de Escrivão.
Em 1885 (2& convocatória) obteve 55 votos contra os 112 do vencedor, Jorge Cabedo de Vasconcelos (votaram 167 Irmãos).
Toda esta efervescência no seio da Irmandade se devia, afinal, às lutas políticas que se desenvolviam na cidade; Regeneradores e Progressistas, que disputavam o poder, digladiavam-se também dentro da própria Misericórdia, defendendo interesses pessoais, sem se preocuparem com os necessitados que recorriam àquela instituição de beneficência. Os Regeneradores conseguiram manter o feudo, facto que muitas vezes levou os Progressistas a afastarem-se da liça. Aliás, os Regeneradores tomaram posição idêntica quando a sorte os não bafejou. Nova eleição em 2ª convocatória, com apenas 36 votantes, sem que o nome de Januário da Silva fosse aflorado, podia levar-nos a pensar que ele desistira da luta. Mas tal não acontecera; ele apenas esperava por melhor oportunidade para conseguir a administração da Santa Casa.
Também para a vereação da Câmara Municipal, neste ano de 1886, se verificou a existência de duas facções em confronto. Um grupo de independentes, aliados aos Republicanos dinamizaram a campanha eleitoral através do ataque à prepotência da vereação vigente, apoiada pelos conservadores. Estes últimos, que se mantinham fiéis ao "egoísmo do rico proprietário José Maria dos Santos", conseguiram manter a maioria, enquanto os primeiros elegeram dois vereadores efectivos e dois substitutos, sendo o mais votado José António Januário da Silva, que obteve 1079 votos.
Contudo, na Santa Casa da Misericórdia, processou-se em 1887, novo acto eleitoral. Em 2ª convocatória, votaram 20 Irmão, tendo Januário da Silva obtido 4 votos, contra 16 do eleito, Comendador António de Sousa Brito Maldonado Bandeira, que recusou o cargo; a nova eleição deu o lugar a Francisco José Pereira, com 59 votos.
No ano de 1888, tendo votado 185 Irmãos (2ª convocatória), Januário da Silva alcançou 78 votos, contra 99 de António Joaquim Corrêa. Os Progressistas decidiram apostar de novo na Misericórdia de Setúbal e voltaram "ao ataque".
No ano de 1889, Januário da Silva voltou a ser eleito vereador à Câmara Municipal, numa lista composta por Republicanos e Progressistas da ala esquerda.
Na eleições para a Mesa da Santa Casa candidatou-se ao cargo de Provedor e obteve um voto, contra 171 de António Joaquim Corrêa (regenerador) e 54 de António Maria de Campos Rodrigues (progressista conservador).
Nos anos de 1890, 1891 e 1892 o nome de José António Januário da Silva não aparece entre os propostos para os órgãos da Santa Casa, embora tenham votado sempre mais de 100 Irmãos (2ª convocatória).
No dia 15 de Novembro de 1892, a expensas da Santa Casa da Misericórdia e da Câmara Municipal, foi realizada a mudança do Cruzeiro para o centro do novo Largo de Jesus estando presentes o Provedor, António Joaquim Corrêa, e o Vice-Presidente da Câmara Municipal, José António Januário da Silva. Pela primeira vez se encontraram lado a lado, como representantes das duas instituições mais importantes da cidade, os dois maiores rivais na disputa da direcção da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal.
Assim, em 1893, José António Januário da Silva voltou a concorrer ao cargo de Provedor mas foi novamente vencido, pois apenas conseguiu 75 votos contra 80 de António Joaquim Corrêa, que foi reconduzido no cargo de Provedor.
Finalmente, em 1894, os Progressistas da ala esquerda conseguiram governar a Misericórdia, pois José António Januário da Silva foi eleito, pela primeira vez, Provedor da Santa Casa e reeleito em 1895 com 83 votos (votaram 84 Irmãos). Os Regeneradores, porém, não abandonaram a luta. Januário da Silva tomou, de imediato, medidas propiciadoras de mudança, como veremos seguidamente.
Então, como as instalações da Misericórdia eram insuficientes, a Mesa decidiu, no dia 8 de Agosto, pedir à Associação da Creche que restituísse, o mais rapidamente possível, as instalações que vinha a ocupar desde 6 de Abril de 1892. Em contrapartida, a administração da Santa Casa propunha que a creche se instalasse em alguns compartimentos do antigo hospital, onde não houvesse doentes, para evitar o perigo de contágios.
Neste mesmo dia, o Provedor José António Januário da Silva pediu a intervenção da autoridade administrativa, porque detectou a falta de 525 679 réis; assim, ficava ilibado de responsabilidades, uma vez que encontrou os serviços muito desorganizados.
No dia 12 de Setembro de 1894 foi lido e aprovado o pedido de exoneração da Regente do Hospital, assim como a criação de um lugar de enfermeiro para a substituir. Esta demissão suscitou bastante polémica, pelo que, posteriormente, com a mudança de direcção desta instituição hospitalar, foi anulada.
As despesas com o hospital eram insuportáveis, e assim o Provedor José António Januário da Silva propôs-se custear, a expensas próprias, o arranjo do pátio do largo de Jesus que se encontrava em péssimo estado.
Neste ano de 1894 as lutas políticas geraram um ambiente "muito quente" na cidade. A imprensa local e nacional demonstrou grande interesse pelos acontecimentos verificados no concelho de Setúbal, onde a vida política era complexa e polémica. José António Januário da Silva integrava então o corpo redactorial de O Elmano, juntamente com os Republicanos.
Em 1894 foi proposto pelos apoiantes de António José Batista como candidato a Delegado ao Colégio Eleitoral para eleições de Pares do Reino.
Mas, em 1896, José António Januário da Silva vê-se afastado do cargo de Provedor, após ter sido eleito António Joaquim Corrêa (que decidira voltar à peleja, conseguindo 86 votos, contra os 82 de Januário da Silva). Foi então que se verificou a reintegração da Regente do Hospital, afastada por Januário da Silva em 1894.
No entanto, com o falecimento do Provedor António Joaquim Corrêa, no dia 10 de Novembro de 1896, reassumiu o cargo, "tal como ordena o Compromisso". Assim se manteve até às eleições de 1898, nas quais foi eleito Provedor José Maria da Rosa Albino, com 100 votos, pois Januário da Silva não se apresentou a sufrágio.
O seu nome não volta a aparecer senão na acta do dia 25 de Outubro de 1909, quando se registou em acta um voto de pesar pela sua morte.
No dia 9 de Novembro deu entrada na Santa Casa uma carta da Administração Concelhia, informando do testamento de José António Januário da Silva, a favor daquela instituição. Em sinal de gratidão, a direcção resolveu mandar colocar o seu retrato na sala de sessões, decidindo que, enquanto não se fizesse esse quadro, se afixaria uma lápide, referindo o facto.
A crise financeira continuava, devido à desvalorização do sal, pelo que o Provedor pediu autorização para vender inscrições de assentamento da Junta de Crédito Público, no valor de 3.700 000 réis, deixadas por Januário da Silva. A proposta foi aprovada por unanimidade, pois era urgente pagar a fornecedores que já não podiam esperar. Mesmo depois de morto, José António Januário da Silva conseguiu evitar que o Hospital da Santa Casa da Misericórdia fechasse por falta de verba, tendo a Mesa deliberado mandar rezar uma missa por sua alma.
Durante a sua vida, não tendo nunca constituído família, dedicou-se, além das tarefas profissionais e da política, ao jornalismo, à poesia (em periódicos locais) e à prosa.
Na área da dramaturgia foram guardados por familiares e amigos alguns originais, de que salientaremos:
- Lição aos Velhos, comédia em um acto, escrita em 30 de Setembro de 1869, para ser levada à cena numa récita particular, em casa de António Avelino da Silva;
- E Moléstia, peça carnavalesca, escrita em Janeiro de 1871, e representada em Setúbal;
- Carnavalice, entreacto cómico, escrito em Janeiro de 1883, e representado no Clube Dramático de Setúbal;
- Quanto vale um criado, comédia em um acto, representada várias vezes no Clube Dramático de Setúbal. sem data;
- Pretexto, poesia dialogada, recitada pelos Setubalenses Leonardo Duarte Júnior e António José de Morais, numa festa de Carnaval em Setúbal, sem data;
- Uma coisa, tolice em um acto, escrita a pedido de Leonardo Duarte Júnior, Fevereiro de 1884;
- O Comendador, opereta em dois actos, com música do maestro Frederico do Nascimento, representada pela primeira vez em Setúbal no dia 4 de Novembro de 1894, no teatro Bocage; foi representada várias vezes em Setúbal e também fora da cidade, em festas de beneficência;
- Malditas Prevenções, comédia musicada em dois actos, com música do maestro supracitado, sem data, inédita;
- A Princesa Aurora, opereta em três actos, com a colaboração de Manuel Envia e música do maestro Celestino Pinto; escrita em 1902, foi representada no Casino Setubalense, em 28 de Setembro de 1916, já após a sua morte;
- Verdadeira Nobreza, comédia-drama em três actos, sem data;
O Ensaio Geral, monólogo, sem data;
Coisas do Meu Policarpo, comédia, sem data.
SILVA, José Maria de Oliveira e: Em 1881 foi eleito vereador substituto e procurador efectivo à Junta Geral do Distrito, tendo obtido 983 votos.
SILVA, Manuel Pereira da: Obteve o cargo de vereador da Câmara Municipal de Setúbal, no ano de 1877, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto.
SIMÕES, José: Alcançou o lugar de vereador no ano de 1878, com 1525 votos, na lista proposta pelo Dr. Rodrigues Manitto.
No ano de 1880 foi um dos quatro vereadores sorteados para continuarem o mandato seguinte, mantendo assim, a maioria progressista no Município de Setúbal.
No ano de 1886 consta como último nome indicado para substituto na lista eleita, cujos efectivos eram: Manuel José de Araújo, José Gonçalves da Cunha e José António Januário da Silva.
SOARES, Manuel António: No dia 6 de Novembro de 1881 foi eleito vereador da Câmara Municipal de Setúbal, com 980 votos.
Ao iniciar-se 1883, Manuel António Soares assumiu a presidência da Câmara de Setúbal.
SOVERAL, Francisco Joaquim Ayres do: Nasceu em Belas, a 29 de Abril de 1823. Médico Cirurgião pela Universidade de Lisboa, doutorou-se em Louvain, Bélgica. Em 1846 veio residir para Setúbal, onde exerceu medicina no Hospital da Misericórdia na saúde pública, sendo, igualmente cirurgião-mór do Batalhão Nacional de Setúbal.
Em 1862 foi Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal, cargo para que foi reeleito em 1863, tendo pedido escusa. Então foi acusado de não querer continuar como Provedor porque a situação financeira da instituição era preocupante.
Era Subdelegado de Saúde quando, em 1880-1881, grassou em Setúbal o tifo exantemático. Então, preocupado com a deflagração da doença, principalmente no bairro de Troino, onde as condições higiénicas eram precaríssimas, enviou um ofício ao Administrador do Concelho, no dia l de Fevereiro de 1880, solicitando a atenção das autoridades para aquele bairro, onde a doença poderia transformar-se numa epidemia incontrolável. Assim, foi de imediato convocado uma reunião extraordinária da Câmara Municipal, onde esteve presente o Dr. Francisco Soveral e outros clínicos com responsabilidade na área da saúde pública.
O Correio do Sado, num artigo sobre a sessão, insinuou que o Dr. Francisco Soveral fora vencido pela opinião dos seus colegas sobre o tipo de doença que grassava em Troino. O médico respondeu na Gazeta Setubalense, desmentindo o artigo do semanário regenerador, e esclareceu que a doença de que vinha falando era "uma afecção tífica, de origem miástica, contagiosa", que lhe parecia ser "o tifo exantemático, constituindo uma pequena epidemia, de carácter relativamente benigno, sendo diminutos os casos fatais".
Dado que a Câmara não tomou as previdências por ele solicitadas, pediu exoneração do cargo de Subdelegado de Saúde, sendo nomeado, para o substituir, o Dr. Manuel Francisco de Paula Barreto, que não concordava com a opinião do Dr. Francisco do Soveral. Segundo ele, os doentes afectados sofriam de "febres paludosas, sem contágio, nem epidemia".
A demissão do clínico foi aceite de pronto pelas autoridades, que consideravam impraticáveis as exigências do responsável pela saúde na cidade de Setúbal. Considerava ele ser urgente: "Disseminar a população, estabelecendo por meio de barracas um acampamento civil; sequestrar os doentes, quanto possível, tratando-os ao ar livre em um hospital-barraca; alimentar bem todos os necessitados, sãos e doentes; purificar as casas e beneficiar as ruas e praias daquele bairro, que são vastas cloacas, genuínos mananciais de pestilências; e, finalmente, adoptar todas as medidas de higiene pública e privada, de simples intuição, superintendendo neste serviço a autoridade pelo valioso auxílio de uma comissão, que deve proceder a visitas domiciliárias e a todas as providências de ocasião".
O ofício continha uma exigência clara e uma implícita responsabilizarão da Câmara pelas consequências da não tomada imediata destas medidas. Terminava claramente com uma ameaça bem explícita "Senão, não".
Venceu o mais forte. O Dr. Francisco do Soveral foi substituído, as suas sugestões não foram ouvidas. Houve internamentos, cuja causa era o tifo exantemático, de que alguns pacientes faleceram, mas a epidemia foi debelada em Maio deste mesmo ano. Um médico, Dr. Manuel Martins da Hora, foi contaminado e faleceu em Lisboa, vítima da doença.
A polémica entre o Correio do Sado e o Dr. Ayres do Soveral, que respondia na Gazeta Setubalense, atingiu proporções tais que Francisco Augusto do Soveral, filho do prestimoso clínico, agrediu o redactor do Correio do Sado, na estação do caminho-de-ferro.
O Dr. Francisco Ayres do Soveral escreveu, então, uma obra intitulada Os tifos de Setúbal, na qual fazia um estudo sobre a doença, sua origem, meios de contágio e modo de a combater. O texto final do trabalho, através do qual manifestou talento e erudição, foi louvado por cientistas de renome e reconhecido pela Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa como um extraordinário trabalho de investigação, revelador de uma tese inovadora sobre a transmissão daquela doença.
Em 1886 fez parte da Assembleia Eleitoral de S. Sebastião e Santa Maria da Graça.
Foi o primeiro substituto do Juiz de Direito.
Em 1900 foi nomeado para uma comissão de inquérito às actividades dum farmacêutico acusado de actividades ilegais, mas pediu escusa dessa incumbência, em ofício datado de 31 de Maio.
Faleceu no dia 16 de Julho de 1909.
SOVERAL, João Evaristo Ayres: Em finais de 1881, ao serem preparadas as eleições autárquicas, o Dr. João Soveral, conhecido clínico da cidade, foi proposto como cabeça de lista para vereadores da Câmara Municipal e eleito com 982 votos. Pediu escusa do cargo, alegando motivos de saúde, ao mesmo tempo que informou a população de que não havia sido consultado antes de apresentado o seu nome.
Após inauguração do novo Hospital da Misericórdia, no ano de 1893, era responsável pela secção destinada a meretrizes, denominada de Santa Isabel, no Hospital da Misericórdia de Setúbal.
O Dr. João Soveral, conceituado clínico, era conhecido pelo seu temperamento irascível. Dele eram contados episódios vários, que divertiam a população Setubalense. Como exemplo referiremos apenas o relato feito em O Distrito, nos finais do ano de 1887, ao referir as atitudes pouco cavalheirescas dos agentes policiais da cidade.
Numa noite em que o clínico se sentara na Praça de Bocage, para respirar o ar puro do mar e descansar, foi abordado pelo Administrador do Concelho, que se fazia acompanhar do Chefe da Polícia, intimando-o a acompanhá-lo para visitar um doente, pedido a que o clínico acedeu de pronto. Terminada a consulta médica, o Administrador do Concelho informou o médico de que, se não o tivesse acompanhado, teria sido multado. O Dr. João do Soveral respondeu-lhe que, se o fizesse, "seria um verdadeiro fiasco", pois que ele não pagaria a multa. O Administrador agrediu o clínico, que respondeu do mesmo modo. Foi preso, tendo sido libertado pouco tempo depois. O Dr. João do Soveral enviou uma carta ao semanário O Distrito, relatando o acontecido. Pedia ainda ao director do periódico que publicasse a sua carta para "chamar a atenção do público para este atentado à liberdade de cidadãos pacíficos" como ele, que até era "condecorado com a Torre e Espada e a Ordem de Cristo".
O Dr. João do Soveral foi um dos oradores mais influentes na sessão da Câmara em que foi repudiada a nomeação dos novos oficiais de diligências.
TORRES, Venâncio Olímpio Ferreira: Aparece ligado a cargos políticos em 1877, ao integrar a lista para a Câmara Municipal, encabeçado pelo Dr. Domingos Garcia Peres e proposta pelos Progressistas. Os restantes elementos eram membros dos dois partidos monárquicos.
Neste mesmo ano o seu nome aparece num abaixo-assinado, solicitando a atenção dos leitores para a lista que propõem para a vereação, a qual ele próprio integra, conjuntamente com António Maria Albino. Posteriormente, numa tentativa de conciliação entre as várias hipóteses a apresentar a sufrágio, o seu nome volta a aparecer, agora com o Dr. Garcia Peres. No entanto, Venâncio Torres não figura entre os eleitos, numa lista encabeçada pelo Dr. Rodrigues Manitto.
Em 1878 fez parte do grupo que formou uma sociedade para explorar a distribuição de água à cidade de Setúbal, com Vicente José Lopes de Azevedo Júnior, fornecedor autorizado, e mais três indivíduos. Aplicaram um capital de 20.000 000 réis. A esta situação opunham-se Joaquim José Corrêa e José Manuel Corrêa.
Em 1885 foi indigitado para o lugar de substituto de José Maria dos Santos, candidato a procurador, por Setúbal, à Junta Geral do Distrito de Lisboa. O seu nome integrava também uma das listas que se opunha ao Dr. Rodrigues Manitto, para a vereação da Câmara Municipal. Também na lista manuscrita existente no Fundo Almeida Carvalho, que nos parece de consenso entre as três oponentes ao então presidente da edilidade, o nome de Olimpio Torres era mencionado.
Quando, no dia 14 de Novembro de 1886, se realizaram novamente eleições para procurador à Junta Geral do Distrito, cargo a que concorreram o Regenerador, e detentor do referido cargo, José Maria dos Santos (vencedor com 1386 votos), apoiado pelos Progressistas e o Dr. Manuel Francisco da Paula Barreto, dito independente, mas com propensão para as ideias republicanas, Venâncio Olímpio Ferreira Torres, substituto em ambas as listas, obteve 2234 votos.
Aquando da crise de moeda verificado em Setúbal no ano de 1891, fez parte do grupo de comerciantes que emitiram cédulas em substituição das notas do Banco de Portugal.
No dia 7 de Janeiro de 1894, quando reuniram trinta dos quarenta maiores contribuintes, para elegerem a comissão de recenseamento, foi-lhe atribuído o cargo de vice-presidente (era o primeiro substituto da lista apresentada).
Era um dos proprietários e comerciantes mais abastados da cidade que, como se pode verificar pela sua integração nas diferentes listas de candidatos para os vários órgãos de representação municipal, tinha o apoio dos dois partidos políticos, então em confronto na cidade.
No dia 8 de Abril de 1894, o seu nome constava de um manifesto assinado pelos mais conhecidos conservadores de Setúbal, e também por alguns Progressistas, no qual propunha o Dr. António Rodrigues Manitto para o Colégio Distrital incumbido de eleger os Pares do Reino pelo distrito.
Venâncio Olímpio Ferreira Torres, que ao longo dos anos se identificou como progressista, aparece-nos então ligado à ala mais conservadora do concelho, tal como o Dr. Rodrigues Manitto.
VALDEZ, António de Campos: Filho do desembargador da Relação, Francisco Manuel de Campos, e de Henriqueta Gomes Travassos Valdez, nasceu em Alcácer do Sal, no dia 5 de Agosto de 1837.
Foi empresário do teatro de S. Carlos em Lisboa, com apenas 24 anos, embora cursasse as aulas da Escola Politécnica e seus pais, oriundos de "famílias distintas", o destinassem, deste muito novo, à carreira militar.
Enquanto aluno, dedicava-se mais à música do que às disciplinas curriculares, sendo, aos 20 anos, um músico de renome.
No teatro era um crítico inflexível, temido e respeitado por artistas e empresários, pois não se coibia de "patear" desesperadamente o artista que lhe desagradava, nem refreava o entusiasmo, quando aplaudia apaixonadamente aqueles que o deliciavam com exibições espectaculares.
Ao longo dos 12 anos em que foi empresário do teatro S. Carlos, Campos Valdez trouxe a Portugal os cantores mais famosos do tempo como "o Mongini, o Naudim, A Lotti, a Volpini, a Rei Bala, a Galleti, o Fancelli, o Junga, a Borghi-Mamo, as irmãs Marchisios, o Petit, o Squartia..., que interpretaram óperas célebres como o Fausto, a Africana, a Hebria, a Linda de Chamounix, a Ione, o Ruy Blas, o Calígula, o Arco de Santa Ana, o Eurico, a Semiramis, a Vestal", entre outras. Também o bailiado lhe mereceu a melhor atenção, pois trouxe a Lisboa, além de outros, o afamado "corpo de baile Vienense, que era dirigido por Katti Laner, uma celebridade corográfica, e de que fazia parte a Bertha Linda, uma austríaca não menos célebre" o excesso de trabalho conduziu-o à exaustão e obrigou-o a retirar-se, para descansar, em 1873.
Quando, em 30 de Maio de 1879, o Ministério regenerador foi substituído pelo progressista, António de Campos Valdez foi proposto candidato a deputado pelo circulo 101 (Setúbal), apoiado pelo Governo e pelo Centro Político da cidade. Opunha-se-lhe o deputado do círculo, Conselheiro António Maria Barreiros Arrobas, que, embora regenerador, foi novamente eleito.
A oposição ganhou por uma diferença de 1426 votos. Esta vitória verificou-se nas Mesas de Santa Maria, S. Julião, Azeitão e Palmela, zonas de influência do Conselheiro e de implantação do Partido Regenerador.
Em Alcácer do Sal, local de sua residência, venceu António de Campos Valdez com 645 votos, contra 352 do seu oponente.
Em 1883, após 10 anos de interregno, voltou ao teatro S. Carlos, como administrador por conta do Governo. No ano seguinte, assinou um contrato, por 5 anos, para exploração daquela casa de espectáculos. Em 1889, após concurso, a empresa foi-lhe de novo entregue.
Faleceu em Paris no dia 8 de Maio de 1889.
VILAÇA, Dr. Azevedo: Quando, no dia 5 de Novembro de 1880, o Dr. Vicente Monteiro, Governador Civil substituto do Distrito de Lisboa, visitou Setúbal, para tomar conhecimento das necessidades deste concelho, o administrador, Dr. Azevedo Vilaça, convidara representantes das várias agremiações e outros cidadãos influentes para uma reunião, onde foi nomeada uma comissão composta por José de Groot Pombo, Manuel José de Araújo, Maurício de Oliveira, prior José Luís Lage, João José Soares, Campos Rodrigues, Dr. Garcia Peres, Dr. António Rodrigues Manitto, Joaquim da Costa Novais, António Maria Albino, Manuel Livério, Henrique Ahrens, António Joaquim Corrêa, Joaquim Nunes da Silva e Dr. Manuel de Paula Barreto. Tal comissão após algumas reuniões, decidiu solicitar medidas inadiáveis em três áreas que considerava prioritárias: o saneamento básico, pois Setúbal era a cidade com piores condições de higiene pública; a instrução, com o pedido de conversão do liceu municipal em escola secundária municipal, o que significava a sua oficializarão; a rede viária, com a atribuição dos impostos do trabalho às freguesias onde residiam os contribuintes. O relatório, elaborado por João José Soares, foi entregue ao Governador Civil substituto, após a sua visita às várias instituições do concelho.
XARO, Manuel da Gama: Nasceu em Beja, a 22 de Dezembro de 1800, e morreu a 10 de Março de 1870.
Em 1827 foi nomeado prior de S. Sebastião, em Setúbal, cargo que ocupou durante mais de 30 anos. Enquanto Vigário Geral em Setúbal, benzeu da primeira pedra de capela do cemitério da cidade, no dia 22 de Maio de 1859.
Foi desembargador da Relação Eclesiástica do Patriarcado. Em 1864 era Cónego da Basílica Patriarcal de Lisboa.
Pouco dedicado à política, Manuel da Gama Xaro foi eleito deputado pelo círculo de Beja, cargo a que renunciou pouco tempo depois.
Ao ser agraciado com o hábito da ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, recusou a condecoração.
Membro do Conservatório de Lisboa, associado provincial da Academia Real das Ciências, sócio correspondente da Sociedade Agrícola de Beja e da Academia Arqueológica de Madrid, foi um dos dinamizadores da Sociedade Arqueológica Lusitana, de que era presidente o Duque de Palmela. Neste projecto colaborou João Carlos de Almeida Carvalho. Publicou algumas obras e escreveu vários artigos no Arquivo Pitoresco.